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Character.ai pede proteção judicial e Disney oferece 20 milhões

A Character.ai pediu proteção ao abrigo do Capítulo 11 nos EUA. A empresa aponta custos operacionais, riscos judiciais e pressão regulatória; a Disney propôs licenciar ativos por 20 milhões de dólares.

A redação nullbotPublicado a 14 de outubro de 20264 min de leituraFontes (2)
Uma conversa do Character.ai apresentada num smartphone
SelfCloak · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Pedido de proteção judicial nos Estados Unidos

A Character.ai, empresa responsável por uma plataforma de companheiros de inteligência artificial, iniciou voluntariamente um processo ao abrigo do Capítulo 11 da lei de falências dos Estados Unidos. O pedido foi apresentado no Tribunal de Falências do Distrito de Delaware e visa organizar uma venda supervisionada pelo tribunal de todos, ou de substancialmente todos, os ativos da empresa. A informação consta de documentos judiciais e de um comunicado divulgado pela própria Character.ai em 13 de outubro.

A plataforma permite conversas individuais e interações de representação com personagens de IA. Segundo a empresa, acumulou uma base de utilizadores grande e envolvida nos seus quatro anos de atividade. Contudo, a Character.ai afirmou nos autos que o crescimento do entretenimento baseado em IA se revelou dispendioso de desenvolver e expandir, num mercado que se tornou simultaneamente mais competitivo e mais exigente do ponto de vista operacional.

Custos, processos e pressão regulatória

Nos documentos apresentados ao tribunal, a Character.ai declarou que os custos elevados, combinados com potenciais responsabilidades resultantes de litígios e com a interação regulatória, contribuíram para a incapacidade de gerar fluxos de caixa suficientes para sustentar o negócio na sua forma atual. Trata-se de uma explicação atribuída à empresa; o processo de Capítulo 11 não determina, por si só, a causa económica definitiva da dificuldade financeira.

A empresa tem enfrentado várias ações judiciais relacionadas com a segurança dos seus chatbots. Em janeiro, o Estado do Kentucky processou a Character.ai, alegando que a plataforma teria explorado crianças e levado algumas delas a comportamentos de automutilação. Estas são alegações apresentadas num processo judicial e não factos definitivamente provados. A Character.ai beneficia da presunção de inocência, e qualquer responsabilidade deverá ser apreciada pelas autoridades e tribunais competentes.

A combinação entre desenvolvimento tecnológico, moderação, segurança de utilizadores, equipas de apoio e obrigações legais ajuda a explicar por que razão uma aplicação popular pode não dispor de receitas suficientes para financiar a sua operação. Os documentos citados não detalham uma repartição dos custos nem divulgam resultados financeiros completos. Ainda assim, deixam claro que a empresa relaciona a sua decisão com obstáculos legais, regulamentares e operacionais significativos.

Disney apresenta proposta de referência

Antes da apresentação do pedido de proteção judicial, a Character.ai celebrou um acordo com a Disney Worldwide Services, Inc. A Disney deverá atuar como stalking horse bidder, isto é, como proponente de referência no processo de venda. O acordo prevê uma licença perpétua e não exclusiva sobre determinada propriedade intelectual da Character.ai, bem como sobre determinadas reivindicações da empresa.

O valor indicado para essa proposta é de 20 milhões de dólares. Além do pagamento, a Disney comprometeu-se a prestar serviços de transição através de antigos trabalhadores da Character.ai que contratou. Segundo o comunicado, esses serviços deverão ajudar a empresa a operar a plataforma de forma segura por um período limitado e apoiar o processo de venda.

  • A proposta da Disney abrange apenas determinada propriedade intelectual e determinadas reivindicações.
  • A licença prevista é não exclusiva e perpétua, segundo a Character.ai.
  • Os 20 milhões de dólares não impedem a apresentação de uma oferta superior ou melhor.
  • A operação depende dos procedimentos e das decisões do tribunal de falências.

O estatuto de stalking horse não significa que a Disney tenha adquirido definitivamente os ativos. A proposta está sujeita a ofertas mais elevadas ou consideradas melhores, nos termos da secção 363 do código de falências norte-americano. A Character.ai apresentou uma moção para que o tribunal aprove procedimentos de licitação destinados a organizar esse processo concorrencial.

Continuidade da plataforma não está garantida

A Character.ai afirmou que espera manter o serviço a funcionar com perturbações mínimas durante a venda. Para esse efeito, apresentou as habituais moções de primeiro dia, que, se forem aprovadas pelo tribunal, poderão permitir o pagamento de salários e benefícios, o cumprimento de compromissos com utilizadores e o pagamento de obrigações com fornecedores e parceiros contraídas após a data do pedido.

Essa continuidade é uma expectativa da empresa, não uma garantia. O comunicado prevê expressamente que a plataforma poderá ser encerrada se o processo de venda não resultar numa aquisição que assegure a continuação do serviço. Para utilizadores, criadores e organizações que tenham integrado a ferramenta em atividades de comunicação, aprendizagem ou entretenimento, essa ressalva torna relevante a preparação para uma eventual interrupção.

A empresa indicou, no calendário proposto para o procedimento, que espera concluir a venda e fechar quaisquer transações resultantes no final de novembro ou no início de dezembro de 2026. Esse calendário depende do tribunal, das regras de licitação e das ofertas que possam surgir. Não há confirmação, nos elementos disponíveis, de que a Disney será a compradora final ou de que a plataforma será preservada tal como existe hoje.

Um percurso marcado por acordos tecnológicos

Em 2024, a Google assinou um acordo de licenciamento não exclusivo para a tecnologia de modelos de linguagem de grande dimensão da startup. A Google também voltou a contratar os cofundadores Noam Shazeer e Daniel De Freitas, ambos antigos trabalhadores da empresa. Segundo a informação divulgada, o acordo incluiu financiamento adicional para a Character.ai continuar a crescer.

Noam Shazeer deixou a Google em junho para se juntar à OpenAI. Estes movimentos mostram que parte da tecnologia e do talento associados à Character.ai já tinha despertado interesse de grandes grupos tecnológicos antes do atual processo de venda. Porém, o pedido de Capítulo 11 diz respeito à Character Technologies Inc. e ao seu esforço para maximizar o valor dos ativos sob supervisão judicial.

Para empresas e organizações em Portugal que utilizem plataformas de IA generativa, o caso reforça uma consequência prática: popularidade e capacidade técnica não asseguram continuidade contratual ou operacional. Convém identificar dependências, condições de acesso a conteúdos e alternativas de serviço, sem assumir que uma plataforma em processo de venda manterá necessariamente as mesmas funcionalidades ou disponibilidade.

Fontes

  1. AI companion startup Character.ai files for Chapter 11 bankruptcy, citing costs and litigationCNBC · 13 de outubro de 2026
  2. Character.ai Initiates Voluntary Chapter 11 Proceeding to Facilitate Value-Maximizing Sale ProcessBusiness Wire / Yahoo Finance · 13 de outubro de 2026

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