Character.ai pede proteção judicial e Disney oferece 20 milhões
A Character.ai pediu proteção ao abrigo do Capítulo 11 nos EUA. A empresa aponta custos operacionais, riscos judiciais e pressão regulatória; a Disney propôs licenciar ativos por 20 milhões de dólares.

Pedido de proteção judicial nos Estados Unidos
A Character.ai, empresa responsável por uma plataforma de companheiros de inteligência artificial, iniciou voluntariamente um processo ao abrigo do Capítulo 11 da lei de falências dos Estados Unidos. O pedido foi apresentado no Tribunal de Falências do Distrito de Delaware e visa organizar uma venda supervisionada pelo tribunal de todos, ou de substancialmente todos, os ativos da empresa. A informação consta de documentos judiciais e de um comunicado divulgado pela própria Character.ai em 13 de outubro.
A plataforma permite conversas individuais e interações de representação com personagens de IA. Segundo a empresa, acumulou uma base de utilizadores grande e envolvida nos seus quatro anos de atividade. Contudo, a Character.ai afirmou nos autos que o crescimento do entretenimento baseado em IA se revelou dispendioso de desenvolver e expandir, num mercado que se tornou simultaneamente mais competitivo e mais exigente do ponto de vista operacional.
Custos, processos e pressão regulatória
Nos documentos apresentados ao tribunal, a Character.ai declarou que os custos elevados, combinados com potenciais responsabilidades resultantes de litígios e com a interação regulatória, contribuíram para a incapacidade de gerar fluxos de caixa suficientes para sustentar o negócio na sua forma atual. Trata-se de uma explicação atribuída à empresa; o processo de Capítulo 11 não determina, por si só, a causa económica definitiva da dificuldade financeira.
A empresa tem enfrentado várias ações judiciais relacionadas com a segurança dos seus chatbots. Em janeiro, o Estado do Kentucky processou a Character.ai, alegando que a plataforma teria explorado crianças e levado algumas delas a comportamentos de automutilação. Estas são alegações apresentadas num processo judicial e não factos definitivamente provados. A Character.ai beneficia da presunção de inocência, e qualquer responsabilidade deverá ser apreciada pelas autoridades e tribunais competentes.
A combinação entre desenvolvimento tecnológico, moderação, segurança de utilizadores, equipas de apoio e obrigações legais ajuda a explicar por que razão uma aplicação popular pode não dispor de receitas suficientes para financiar a sua operação. Os documentos citados não detalham uma repartição dos custos nem divulgam resultados financeiros completos. Ainda assim, deixam claro que a empresa relaciona a sua decisão com obstáculos legais, regulamentares e operacionais significativos.
Disney apresenta proposta de referência
Antes da apresentação do pedido de proteção judicial, a Character.ai celebrou um acordo com a Disney Worldwide Services, Inc. A Disney deverá atuar como stalking horse bidder, isto é, como proponente de referência no processo de venda. O acordo prevê uma licença perpétua e não exclusiva sobre determinada propriedade intelectual da Character.ai, bem como sobre determinadas reivindicações da empresa.
O valor indicado para essa proposta é de 20 milhões de dólares. Além do pagamento, a Disney comprometeu-se a prestar serviços de transição através de antigos trabalhadores da Character.ai que contratou. Segundo o comunicado, esses serviços deverão ajudar a empresa a operar a plataforma de forma segura por um período limitado e apoiar o processo de venda.
- A proposta da Disney abrange apenas determinada propriedade intelectual e determinadas reivindicações.
- A licença prevista é não exclusiva e perpétua, segundo a Character.ai.
- Os 20 milhões de dólares não impedem a apresentação de uma oferta superior ou melhor.
- A operação depende dos procedimentos e das decisões do tribunal de falências.
O estatuto de stalking horse não significa que a Disney tenha adquirido definitivamente os ativos. A proposta está sujeita a ofertas mais elevadas ou consideradas melhores, nos termos da secção 363 do código de falências norte-americano. A Character.ai apresentou uma moção para que o tribunal aprove procedimentos de licitação destinados a organizar esse processo concorrencial.
Continuidade da plataforma não está garantida
A Character.ai afirmou que espera manter o serviço a funcionar com perturbações mínimas durante a venda. Para esse efeito, apresentou as habituais moções de primeiro dia, que, se forem aprovadas pelo tribunal, poderão permitir o pagamento de salários e benefícios, o cumprimento de compromissos com utilizadores e o pagamento de obrigações com fornecedores e parceiros contraídas após a data do pedido.
Essa continuidade é uma expectativa da empresa, não uma garantia. O comunicado prevê expressamente que a plataforma poderá ser encerrada se o processo de venda não resultar numa aquisição que assegure a continuação do serviço. Para utilizadores, criadores e organizações que tenham integrado a ferramenta em atividades de comunicação, aprendizagem ou entretenimento, essa ressalva torna relevante a preparação para uma eventual interrupção.
A empresa indicou, no calendário proposto para o procedimento, que espera concluir a venda e fechar quaisquer transações resultantes no final de novembro ou no início de dezembro de 2026. Esse calendário depende do tribunal, das regras de licitação e das ofertas que possam surgir. Não há confirmação, nos elementos disponíveis, de que a Disney será a compradora final ou de que a plataforma será preservada tal como existe hoje.
Um percurso marcado por acordos tecnológicos
Em 2024, a Google assinou um acordo de licenciamento não exclusivo para a tecnologia de modelos de linguagem de grande dimensão da startup. A Google também voltou a contratar os cofundadores Noam Shazeer e Daniel De Freitas, ambos antigos trabalhadores da empresa. Segundo a informação divulgada, o acordo incluiu financiamento adicional para a Character.ai continuar a crescer.
Noam Shazeer deixou a Google em junho para se juntar à OpenAI. Estes movimentos mostram que parte da tecnologia e do talento associados à Character.ai já tinha despertado interesse de grandes grupos tecnológicos antes do atual processo de venda. Porém, o pedido de Capítulo 11 diz respeito à Character Technologies Inc. e ao seu esforço para maximizar o valor dos ativos sob supervisão judicial.
Para empresas e organizações em Portugal que utilizem plataformas de IA generativa, o caso reforça uma consequência prática: popularidade e capacidade técnica não asseguram continuidade contratual ou operacional. Convém identificar dependências, condições de acesso a conteúdos e alternativas de serviço, sem assumir que uma plataforma em processo de venda manterá necessariamente as mesmas funcionalidades ou disponibilidade.
Fontes
- AI companion startup Character.ai files for Chapter 11 bankruptcy, citing costs and litigationCNBC · 13 de outubro de 2026
- Character.ai Initiates Voluntary Chapter 11 Proceeding to Facilitate Value-Maximizing Sale ProcessBusiness Wire / Yahoo Finance · 13 de outubro de 2026



