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Autores contestam editoras e agentes no acordo da Anthropic

Enquanto a Anthropic prepara os primeiros pagamentos do seu acordo de 1,5 mil milhões de dólares por pirataria de livros, autores afirmam que editoras e agentes literários estão a reivindicar uma parte do dinheiro que consideram ser só deles.

A redação nullbotPublicado a 7 de setembro de 20265 min de leituraFontes (2)
Fileiras de livros de direito alinhados em prateleiras de uma biblioteca
David Whelan · CC0 · Wikimedia Commons

Enquanto a Anthropic se prepara para enviar os primeiros pagamentos do seu acordo de 1,5 mil milhões de dólares por direitos de autor, escritores afirmam estar a descobrir que as suas editoras -e, nalguns casos, os seus agentes- estão a reivindicar uma parte do dinheiro que julgavam pertencer-lhes apenas a eles. Desde que os avisos de reclamação foram enviados esta semana, os autores têm publicado nas redes sociais capturas de ecrã que mostram editoras a reivindicar livros cujos direitos lhes tinham sido devolvidos há anos, e agências literárias a pedir uma parte de pagamentos por obras que nunca possuíram.

Porque é que a Anthropic está a pagar 1,5 mil milhões de dólares

O pagamento remonta a uma ação coletiva por direitos de autor movida contra a Anthropic relativa ao material usado para treinar os seus modelos Claude. Um juiz federal decidiu que treinar sistemas de IA com livros protegidos por direitos de autor é permitido ao abrigo da doutrina do uso justo (fair use), mas que descarregar esses livros de bibliotecas pirata não é. Perante a perspetiva de um julgamento apenas sobre as alegações de pirataria, a Anthropic optou por chegar a acordo; o pacto, que abrange os autores de quase 500 mil títulos, recebeu aprovação final do tribunal em julho.

Segundo os termos do acordo, cada título elegível vale 3.000 dólares. De acordo com um relatório de estado apresentado pelos advogados da ação coletiva e divulgado pelo boletim especializado Publishers Lunch, a Anthropic já depositou 1,05 mil milhões de dólares numa conta-caução, que já rendeu cerca de 25 milhões de dólares em juros, e ainda terá de depositar mais de 450 milhões de dólares. Os primeiros pagamentos, de aproximadamente 2.203,56 dólares por título depois de deduzidos honorários, prémios de serviço e despesas, estão previstos entre 1 e 15 de novembro -mas apenas para os títulos em que «todos os titulares de direitos estão de acordo» e a informação de pagamento esteja completa.

Quem recebe o dinheiro -e quem diz que não deveria

A regra de repartição do acordo está na origem do atual litígio. Se um livro ainda estiver publicado por uma editora tradicional, o pagamento de 3.000 dólares é dividido em partes iguais entre autor e editora. Se o livro tiver sido autopublicado, ou se a editora o tiver deixado esgotar e devolvido os direitos, o autor tem direito à totalidade. Contudo, para reivindicar 100%, a devolução dos direitos tem de ter ocorrido antes de 10 de agosto de 2022, a «data de download» oficial fixada pelo acordo.

É aí que os autores dizem que começam os problemas. A escritora de mistério e suspense April Henry contou que a HarperCollins reivindicou parte de um livro cujos direitos lhe tinham sido devolvidos há pelo menos 17 anos -no mesmo dia, notou, em que a editora foi acrescentada por engano à sua conta como empregadora. No blogue do setor Writers Beware, Victoria Strauss disse ter recebido uma vaga de queixas de autores que se enquadram em duas categorias: editoras a reivindicar pagamento por livros sobre os quais já não têm direitos, e editoras a reivindicar 100% de um pagamento quando o acordo lhes atribui apenas metade. Strauss afirmou estar «relutante em atribuir a má-fé o que pode ser plausivelmente explicado por má gestão de registos», mas acrescentou que o volume e a repetição das queixas recebidas sugerem algo «muito mais alargado e sistémico» do que simples erros de rotina. As editoras não são as únicas visadas: Strauss disse ter também recebido queixas sobre agências literárias a reivindicar parte dos pagamentos do acordo, algo que considera surpreendente «já que os agentes não são titulares de direitos sobre os livros que vendem». A autora Courtney Milan, sob o seu pseudónimo, escreveu no Bluesky que não considera aceitável que agentes reivindiquem uma percentagem do acordo. A diretora executiva da Authors Guild, Mary Rasenberger, adotou um tom mais moderado: disse ao The New York Times que não vê o padrão como uma tentativa deliberada de «apropriação» por parte das editoras, e que acredita refletir má gestão de registos e um processo de reclamação confuso, e não má-fé.

O litígio em números

  • 1,5 mil milhões de dólares — valor total do acordo da Anthropic
  • Quase 500 mil — títulos de livros abrangidos pelo pacto
  • 3.000 dólares — pagamento devido por título pirateado
  • 50/50 — repartição autor-editora quando o livro ainda está publicado
  • 10 de agosto de 2022 — prazo-limite de devolução de direitos para reivindicação integral
  • 1 a 15 de novembro — janela prevista para os primeiros pagamentos

O que isto significa para outros processos por direitos de autor em IA

O acordo da Anthropic é o maior do género alcançado até agora, e tornou-se uma referência para autores e editoras que perseguem reivindicações semelhantes por pirataria contra outras empresas de IA que enfrentam os seus próprios processos por treino com livros. A tese jurídica subjacente -que treinar com texto protegido pode ser uso justo, mas obter esse texto de bibliotecas pirata não- já está a ser citada noutros processos. Mas os litígios sobre os pagamentos complicam o atrativo desse modelo: um valor de acordo em destaque não garante que cada autor seja pago de forma limpa, rápida, ou sem ter de disputar com a própria editora ou agente aquilo que lhe é devido. É um aviso para qualquer futuro acordo construído sobre a mesma estrutura, em que milhares de titulares de direitos com reivindicações sobrepostas têm de ser resolvidos contrato a contrato.

O que isto muda para as empresas que treinam modelos com conteúdo protegido

A lição para qualquer empresa que treina modelos com conteúdo protegido não é apenas que obter textos a partir de cópias pirateadas acarreta responsabilidade na ordem dos milhares de milhões de dólares -é que um acordo não põe fim a essa exposição. A Anthropic ainda tem de supervisionar a correta distribuição dos fundos entre quase 500 mil títulos contestados, um trabalho de verificação que agora partilha com cada editora e agente literário envolvido, e que está a decorrer publicamente antes mesmo de ter sido feito um único pagamento. Uma empresa que avalie um risco semelhante deveria orçamentar não só o valor de eventuais indemnizações, mas também os anos de administração de reclamações, repartições contestadas e escrutínio reputacional que se seguem a um acordo desta dimensão.

Fontes

  1. Authors push back as publishers and agents seek share of Anthropic settlementTechCrunch · 6 de setembro de 2026
  2. Widespread Problems as Authors Receive Anthropic Settlement NoticesPublishers Lunch · 4 de setembro de 2026

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