Muse da Meta cria perfis detalhados de amigos, família e colegas
A Meta afirma que o assistente Muse gera automaticamente uma página dedicada a cada pessoa mencionada pelo utilizador, armazenando factos, objetivos comuns e conversas pendentes, usando apenas dados públicos e informações fornecidas pelo utilizador.

Introdução
A Meta divulgou recentemente que o seu assistente de IA, denominado Muse, tem a capacidade de criar automaticamente uma página dedicada a cada pessoa que o utilizador menciona nas interacções, independentemente de se tratar de familiares próximos, amigos casuais ou contas seguidas nas redes sociais. Esta funcionalidade surge como parte de uma estratégia mais ampla de oferecer transparência sobre o que a inteligência artificial sabe acerca dos indivíduos citados nas conversas.
Segundo a declaração oficial da empresa, a geração destas páginas baseia‑se exclusivamente em dados de domínio público e na informação que o próprio utilizador fornece de forma explícita ao Muse. Não são recolhidos dados de terceiros sem o seu conhecimento, e o assistente não recorre a fontes privadas para compilar os perfis.
Estrutura das páginas geradas automaticamente
Cada página criada pelo Muse está organizada em várias secções bem definidas. A secção “Factos” lista informações verificáveis, como datas de nascimento, cargos públicos ou outras credenciais que podem ser confirmadas por fontes abertas. Já o “Histórico” regista a primeira menção ao indivíduo e todas as atualizações subsequentes que o assistente incorpora ao longo do tempo.
A secção “Relação” descreve a natureza da ligação entre o utilizador e a pessoa em questão, indicando se são parentes, colegas de trabalho ou simples contactos nas redes. Em “Pontos Comuns” são recolhidos interesses partilhados, projectos colaborativos ou metas que ambos tenham em comum. Por fim, o segmento “Discussões Pendentes” sinaliza tópicos levantados mas ainda não resolvidos, enquanto “Maneiras de Fortalecer o Vínculo” sugere ações práticas, como enviar uma mensagem de parabéns por um aniversário ou marcar uma reunião para avançar um projecto conjunto.
Fontes de dados e mecanismos de isolamento
A Meta sublinha que o Muse utiliza apenas duas fontes de informação: os dados publicamente disponíveis na internet e os detalhes que o utilizador introduz diretamente durante as conversas. Para garantir que a memória de um utilizador não se mistura com a de outro, cada instância do assistente opera dentro de uma máquina virtual isolada, inacessível a agentes externos ou a outros utilizadores da plataforma.
Este isolamento técnico é complementado por controlos ao nível do utilizador. Qualquer memória armazenada pode ser eliminada a pedido, o Muse pode ser desconectado de serviços externos e todas as ações sensíveis, como o envio de um e‑mail ou a realização de uma compra, exigem confirmação explícita do utilizador. Cada uma destas operações gera um registo de auditoria que pode ser revisto a qualquer momento pelo titular da conta.
Controlo do utilizador e auditoria
A plataforma oferece ao utilizador um painel de controlo onde é possível visualizar todas as páginas criadas, editar ou apagar informações individuais e revogar permissões concedidas ao Muse. Além disso, o histórico de auditoria inclui timestamps, tipos de ação e o dispositivo utilizado, permitindo uma rastreabilidade completa em caso de disputa ou investigação interna.
Críticas e preocupações de privacidade
Organizações de defesa da privacidade alertam para o risco de perfilamento indirecto de terceiros que nunca interagiram com o Muse. Como o assistente agrega informações sobre todas as pessoas mencionadas, estes indivíduos podem acabar com um dossier detalhado sem ter fornecido consentimento ou mesmo ter conhecimento da recolha de dados.
- Potencial para informações imprecisas ou desatualizadas
- Falta de consentimento direto das pessoas perfiladas
- Risco de uso indevido para publicidade direcionada ou manipulação
- Dificuldade para terceiros solicitarem eliminação ou correção
Um artigo publicado pela Wired a 5 de outubro de 2026 destaca que a criação automática destas páginas pode gerar o que os autores denominam “perfis sombra”, ampliando o ecossistema de dados da Meta para além da base de utilizadores direta. Outro relatório da Next, datado de 6 de outubro de 2026, aponta que o volume massivo de detalhes pessoais armazenados pode sobrecarregar os utilizadores, dificultando a gestão ou auditoria eficaz da informação recolhida.
A Meta responde que a funcionalidade é completamente opcional e que os utilizadores mantêm controlo total sobre a eliminação e a desconexão das páginas. Contudo, a empresa ainda não disponibiliza um mecanismo que permita às próprias pessoas descritas nas páginas solicitar a remoção dos seus dados, uma lacuna que deverá ser analisada pelos reguladores europeus nos próximos meses.
Para as empresas portuguesas, as implicações são duplas. Em primeiro lugar, as políticas internas de privacidade devem prever que o uso do Muse por um colaborador pode gerar inadvertidamente perfis de clientes, parceiros ou concorrentes, expondo a organização a potenciais responsabilidades ao abrigo do RGPD e da Lei de Proteção de Dados Pessoais. Em segundo lugar, os registos de auditoria e as ferramentas de eliminação fornecem ao departamento de TI meios concretos para demonstrar conformidade, mas exigem a definição de procedimentos claros que assegurem o tratamento adequado de dados de terceiros.
Fontes
- Muse creates detailed profiles of all your friends and familyWIRED · 5 de outubro de 2026
- Meta Muse se souvient de beaucoup de choses sur l’utilisateur, mais aussi ses prochesNext · 6 de outubro de 2026



