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Juíza federal considera ilegal a lista negra do Pentágono à Anthropic

Uma juíza federal dos EUA anulou a designação da Anthropic como "risco para a cadeia de abastecimento" pelo Pentágono, considerando a medida uma retaliação inconstitucional depois de a empresa ter recusado armas letais e vigilância em massa.

A redação nullbotPublicado a 28 de agosto de 20264 min de leituraFontes (3)
Vista aérea do Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos
"DoD photo by Master Sgt. Ken Hammond, U.S. Air Force." · Public domain · Wikimedia Commons

Uma juíza federal de São Francisco decidiu na quinta-feira que a inclusão da Anthropic na lista negra do Pentágono, no início deste ano, foi ilegal, uma vitória importante para o laboratório de inteligência artificial no seu braço de ferro de vários meses com a administração Trump. A juíza distrital Rita Lin concluiu que o Departamento de Defesa violou a Primeira Emenda ao designar a Anthropic como "risco para a cadeia de abastecimento" em fevereiro, um rótulo que impedia a empresa de aceder a contratos federais e afastava fornecedores militares.

Numa decisão de 59 páginas, Lin escreveu que a decisão do secretário da Defesa Pete Hegseth foi "arbitrária, caprichosa, um abuso de poder e, além disso, contrária à lei". Concluiu que a designação equivalia a retaliação ilegal pelas críticas públicas da Anthropic ao uso militar de IA, e não a uma preocupação genuína de segurança nacional.

O que a decisão muda na prática

A ordem anula a decisão de Hegseth de 27 de fevereiro e levanta sanções impostas por nove agências federais, incluindo o Pentágono, o Departamento do Tesouro, o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna. Estas agências tinham usado o rótulo de risco para justificar a rutura de laços com a Anthropic e pressionar fornecedores a evitar os seus modelos Claude. A ordem de Lin remove estas penalizações por completo.

A decisão não chega a obrigar o Pentágono a voltar a trabalhar com a Anthropic. Lin afirmou explicitamente que o Departamento da Guerra continua livre para escolher o fornecedor de IA que quiser e não é obrigado a usar o Claude. O que não pode fazer, escreveu, é punir um fornecedor por recusar exigências do governo, rotulando-o falsamente como ameaça à segurança.

A invocação vazia da segurança nacional não é um cheque em branco para punir e retaliar contra os críticos do governo.

A juíza federal Rita Lin

Como um contrato de 200 milhões de dólares se tornou uma lista negra

O litígio remonta a um contrato de cerca de 200 milhões de dólares para que o Pentágono usasse os modelos Claude da Anthropic em aplicações militares. Neste último inverno, Hegseth tentou renegociar os contratos de IA em todo o setor para que o Pentágono pudesse usar a tecnologia para "qualquer uso legal", uma expansão considerável da sua autoridade. A maioria dos laboratórios de IA aceitou. A Anthropic recusou, insistindo em duas limitações: nenhuma utilização dos seus modelos para armas letais totalmente autónomas, e nenhuma utilização para vigilância em massa de cidadãos americanos.

As tensões agravaram-se depois de se saber que o Claude tinha sido usado na operação para capturar o Presidente venezuelano Nicolás Maduro, o que levou um funcionário da Palantir a transmitir às autoridades as preocupações de um colaborador da Anthropic sobre a forma como os modelos estavam a ser usados. As negociações fracassaram em fevereiro. Dias depois, a Anthropic tornou-se a primeira empresa americana alguma vez designada publicamente como risco para a cadeia de abastecimento pelo governo dos EUA, e o Pentágono assinou contratos de substituição com outros sete laboratórios de IA, incluindo Google, Microsoft, OpenAI e SpaceX.

  • 27 de fevereiro: Hegseth designa a Anthropic "risco para a cadeia de abastecimento", excluindo-a de contratos federais.
  • Março: a juíza Lin decreta um bloqueio temporário, classificando a medida como "retaliação clássica e ilegal contra a Primeira Emenda".
  • A Anthropic processa em dois tribunais: o tribunal distrital de São Francisco e o Tribunal de Recurso do Circuito de Washington.
  • 27 de agosto: a decisão final de 59 páginas de Lin anula a designação e as sanções das nove agências.

A batalha jurídica ainda não terminou

O processo da Anthropic no Tribunal de Recurso do Circuito de Washington, que contesta outro fundamento jurídico usado pelo Pentágono para a mesma designação, continua pendente. Enquanto esse processo não for resolvido, a empresa permanece tecnicamente classificada no papel como risco para a cadeia de abastecimento, ainda que a decisão de quinta-feira retire as penalizações práticas associadas. Um porta-voz do Pentágono não pôde ser contactado de imediato, e o departamento deverá recorrer da decisão de Lin.

Lin apontou ainda um pormenor que enfraquece a justificação do governo: mesmo depois de colocar a Anthropic na lista negra, responsáveis norte-americanos continuaram a discutir o uso do seu modelo mais recente, chamado Mythos, em contextos governamentais sensíveis. "Nada disto é compatível com um receio genuíno de que a Anthropic seja uma sabotadora que envenenaria o seu software para prejudicar a segurança nacional", escreveu na decisão.

Em comunicado, um porta-voz da Anthropic afirmou que a empresa "saúda a decisão do tribunal de que esta designação de risco para a cadeia de abastecimento era ilegal" e continua "focada em trabalhar de forma produtiva com o governo para colocar a IA ao serviço da nossa segurança nacional, em benefício de todos os americanos". Para as empresas portuguesas e europeias que negoceiam contratos públicos ligados à IA, a decisão mostra que um rótulo de segurança nacional não pode ser usado para punir um fornecedor por impor os seus próprios limites a usos letais ou de vigilância, mesmo perante o governo mais poderoso do mundo.

Fontes

  1. A Judge Has Blocked the Pentagon's Attempt to Blacklist AnthropicWIRED · 28 de agosto de 2026
  2. Judge blocks Pentagon blacklist of Anthropic as supply chain riskCNBC · 28 de agosto de 2026
  3. Anthropic was illegally blacklisted by the Trump administration, court rulesThe Verge · 28 de agosto de 2026

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