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Mesmo na lista negra dos EUA, a Inspur continuou a comprar chips à Nvidia

Três anos depois de Washington ter colocado a gigante chinesa de servidores Inspur na sua lista negra, a subsidiária renomeada Aivres exportou 5,6 mil milhões de dólares em tecnologia avançada, incluindo os chips Blackwell da Nvidia, rumo ao Sudeste Asiático.

A redação nullbotPublicado a 7 de setembro de 20265 min de leituraFontes (2)
A sede da Nvidia em Santa Clara, na Califórnia
Coolcaesar · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Há três anos, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos colocou a Inspur Group, um dos maiores fabricantes de servidores do mundo, na sua Entity List, a lista negra reservada a empresas consideradas uma ameaça à segurança nacional. Essa inclusão devia cortar o acesso da Inspur à tecnologia americana, incluindo os chips de inteligência artificial mais avançados da Nvidia. Não foi isso que aconteceu. Uma investigação do New York Times, baseada em registos comerciais analisados com a empresa de dados ImportGenius e divulgada pela Inside AI News, apurou que a Aivres, uma empresa de Silicon Valley que é legalmente a subsidiária americana renomeada da Inspur, exportou pelo menos 5,6 mil milhões de dólares em tecnologia americana avançada entre abril de 2024 e fevereiro de 2026 — mais de 3 mil milhões de dólares em computadores construídos em torno dos chips Blackwell, os mais recentes da Nvidia. As remessas passaram pelo Sudeste Asiático e, segundo os mesmos registos, seguiram depois para centros de dados e empresas tecnológicas ao serviço das maiores empresas chinesas de inteligência artificial, entre elas a Alibaba e a ByteDance.

O que a Entity List realmente bloqueia

A Entity List do Bureau of Industry and Security (BIS) é a principal ferramenta que Washington usa para impedir que tecnologia americana sensível chegue a empresas consideradas uma ameaça. Uma vez incluída na lista, uma empresa passa a obrigar os seus fornecedores americanos a obterem uma licença especial — raramente concedida para chips avançados — antes de lhe venderem qualquer bem sujeito ao controlo de exportações. O que a lista não faz automaticamente é abranger todas as filiais de uma empresa listada. Quando a Inspur Group foi acrescentada em março de 2023, acusada de procurar tecnologia americana para supercomputadores militares, a sua filial nos EUA não foi nomeada. Em menos de dois meses, essa filial mudou discretamente o nome de Inspur Systems para Aivres Systems. No papel, a Inspur Group detém apenas um terço da Inspur Electronic, que por sua vez é dona a cem por cento da Aivres — uma camada de separação que, até agora, tem bastado para manter a Aivres fora da mesma lista negra que impede a sua casa-mãe de comprar seja o que for.

Um escritório renomeado e uma empresa que não atende

A Aivres não é o único elo da cadeia. Registos comerciais examinados pela ImportGenius mostram que uma empresa chinesa chamada Maginfra, fundada no ano passado e instalada a poucas ruas da sede da Inspur em Jinan, importou mais de 700 milhões de dólares em servidores vindos da Malásia para a China em seis meses — incluindo mais de 1.500 unidades com preços compatíveis com equipamento de IA topo de gama. A Maginfra não tem, no papel, qualquer ligação acionista à Inspur, mas documentos societários mostram que o representante legal da sua casa-mãe ocupou cargos em empresas afiliadas à Inspur, e registos de patentes citam inventores que trabalharam na Inspur. Quando um jornalista visitou a morada registada da Maginfra, o escritório estava vazio — algumas cadeiras e secretárias atrás de uma porta trancada, com funcionários do edifício a garantir que nunca tinham visto ninguém a utilizá-lo. Ainda assim, a administração Trump aprovou este ano uma licença para a Maginfra comprar os chips H200 da Nvidia, menos potentes, e a Maginfra assinou em separado um contrato de 165 milhões de dólares para vender equipamento de computação de alto desempenho a uma divisão de um banco estatal chinês.

  • Mudança de nome: a filial americana da Inspur abandonou o nome Inspur por Aivres dois meses depois de a casa-mãe ser colocada na lista negra em março de 2023.
  • Camadas acionistas: a Inspur Group detém apenas uma participação indireta de um terço na entidade dona da Aivres, o que mantém a filial fora da Entity List.
  • Empresas de fachada: a Maginfra, empresa chinesa recém-criada com pessoal e patentes ligados à Inspur, importou mais de 700 milhões de dólares em servidores vindos da Malásia em seis meses.
  • Acesso remoto à nuvem: empresas chinesas terão treinado modelos em chips Nvidia GB300 alojados em centros de dados na Tailândia sem alguma vez possuírem o equipamento, uma falha que as regras de exportação atuais não cobrem.

É muito difícil olhar para isto e não ver uma rede chinesa apoiada pelo Estado para contornar o controlo de exportações.

William George, diretor de investigação da ImportGenius, citado pela Inside AI News

Porque é que Washington não consegue fechar a brecha

O padrão aponta para um problema de fiscalização tanto quanto jurídico. Dentro do Departamento de Comércio, passaram-se dez meses sem que fosse acrescentada uma única empresa à Entity List — a pausa mais longa em 18 anos, segundo responsáveis atuais e antigos citados pela Inside AI News. Esses responsáveis dizem que a administração se tornou mais cautelosa quanto a alargar a lista negra depois de uma tentativa anterior ter suscitado ameaças de retaliação por parte de Pequim em 2025. A 31 de maio de 2026, o Bureau of Industry and Security publicou uma clarificação segundo a qual a exigência de licença segue a casa-mãe final de uma empresa, seja qual for a sua sede, independentemente de qual filial faz a encomenda — uma regra que a agência diz estar tecnicamente em vigor desde novembro de 2023, ainda que a Aivres continue por acrescentar a qualquer lista. No Congresso, o Remote Access Security Act, que alargaria o controlo de exportações aos chips alugados na nuvem e não apenas aos que uma empresa possui diretamente, foi aprovado pela Câmara dos Representantes em janeiro de 2026, mas continua bloqueado no Senado, segundo a CNBC. "Estão a tentar proibi-los, ou não?", questionou Jordan Nanos, analista da SemiAnalysis que estudou as operações da Aivres, sublinhando que a filial funciona com os mesmos servidores, o mesmo pessoal e os mesmos escritórios da sua casa-mãe sancionada. O porta-voz da Nvidia, John Rizzo, afirmou que a empresa não apoia "produtos desviados" e que só vende a parceiros que trabalham para cumprir as regras de exportação.

O que isto muda para a cadeia de abastecimento de chips

Para as empresas portuguesas e europeias que vendem, transportam ou instalam equipamento de IA, o caso Aivres é um aviso de que a conformidade já não se pode limitar ao nome inscrito na encomenda. A casa-mãe final de um comprador, a sua cadeia de propriedade e o pessoal ou escritórios que partilha com uma entidade sancionada podem pesar mais do que a entidade jurídica que assina o contrato — e os reguladores já mostraram que publicam esse historial depois dos factos, e não antes. Distribuidores e operadores de nuvem que trabalham com centros de dados do Sudeste Asiático enfrentam uma exposição semelhante quanto ao acesso remoto a capacidade de computação, uma área que os reguladores norte-americanos procuram ativamente submeter a licenciamento. Enquanto o Senado não votar o Remote Access Security Act, nem o Bureau of Industry and Security acrescentar novos nomes à sua lista, a responsabilidade de fechar estas brechas recai sobretudo sobre os próprios vendedores.

Fontes

  1. How a Blacklisted Chinese Tech Giant Kept Buying America's Best AI ChipsInside AI News · 7 de setembro de 2026
  2. China AI firms tap Nvidia power overseas as U.S. weighs crackdownCNBC · 19 de agosto de 2026

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