Avanços da CXMT abalam ações de memória e chips para IA
A alegação de progresso da chinesa CXMT numa nova arquitetura de memória desencadeou quedas em fabricantes de chips e equipamentos, reabrindo dúvidas sobre as margens do setor de IA.

A alegação da ChangXin Memory Technologies, conhecida como CXMT, de que avançou numa nova arquitetura de memória provocou uma venda generalizada de ações ligadas aos semicondutores. A reação atingiu fabricantes de memória, empresas de equipamento e grupos expostos ao investimento em infraestrutura de inteligência artificial. Os mercados estão a avaliar se uma empresa chinesa até há pouco pouco conhecida fora do seu mercado doméstico poderá reduzir, mais depressa do que o esperado, a vantagem tecnológica de concorrentes estabelecidos.
Quedas em vários mercados
Na terça-feira, a Micron caiu 3,62%, segundo a CNBC, enquanto as ações da SK Hynix cotadas na Coreia do Sul fecharam com uma descida de 10%. A Samsung Electronics perdeu 7,4%. SanDisk, Seagate e Western Digital, empresas também relacionadas com memória e armazenamento, recuaram igualmente. A notícia sobre a CXMT surgiu num momento em que os investidores já questionavam a dimensão dos gastos em infraestrutura para IA.
A volatilidade foi visível para lá das empresas diretamente concorrentes. O Guardian noticiou que o índice Kospi da Coreia do Sul caiu 6,25%, numa sessão marcada pela venda de títulos de chips. No Japão, o Nikkei desceu 1,8%, enquanto a bolsa de Taiwan perdeu quase 2%; a TSMC caiu aproximadamente na mesma proporção. A reação sugere que os investidores trataram a notícia como um possível fator de pressão para uma cadeia tecnológica muito interligada.
No Japão, a Tokyo Electron, fabricante de equipamento para semicondutores, caiu 7,15%, e o SoftBank Group perdeu 8,5%. Após a abertura em Wall Street, o Nasdaq recuou mais de 100 pontos, ou 0,35%, para 30.556. A Micron desceu 4,8% nessa referência do Guardian, a AMD perdeu 1,4%, a Nvidia 0,8% e a Broadcom 0,2%. Em contraste, o Dow Jones subia quase 0,4% no início da negociação.
O que a CXMT afirma ter alcançado
A CXMT anunciou durante o fim de semana que fez progressos numa arquitetura de memória que permitiria aumentar a densidade, ou seja, colocar mais dados num espaço menor. A empresa planeia, segundo a CNBC, lançar até ao fim de 2026 um novo produto de memória para servidores baseado numa nova arquitetura de células. A notícia não equivale, por si só, à demonstração de produção em grande escala nem a uma comparação independente com os produtos mais avançados dos rivais.
O desenho referido baseia-se na tecnologia chamada “4F square”. A maior densidade de armazenamento é particularmente relevante para sistemas de computação que dependem de grandes volumes de memória. A SK Hynix também persegue projetos deste tipo e apresentou, em 2025, um roteiro para desenvolver a tecnologia. Por isso, a reação dos mercados não decorre de uma tecnologia necessariamente exclusiva da CXMT, mas do sinal de que um concorrente chinês pode estar a aproximar-se de uma área estratégica.
A CXMT produz chips DRAM, memória que armazena os dados usados por outros chips de IA nos seus cálculos. A memória de elevada largura de banda, ou HBM, é uma componente importante dos sistemas de chips para IA. Analistas tendem a considerar que a CXMT ainda está atrás da Micron, Samsung e SK Hynix na fronteira do desenvolvimento de memória. Ainda assim, quaisquer notícias de avanços podem alterar a perceção dos investidores sobre a durabilidade da vantagem competitiva dos líderes mundiais.
- A CXMT afirma ter avançado numa arquitetura de DRAM mais densa.
- A empresa prevê lançar um produto de memória para servidores até ao fim de 2026.
- SK Hynix, Samsung e Micron são vistas como as principais referências globais em memória.
- A tecnologia “4F square” também faz parte do roteiro de desenvolvimento da SK Hynix.
Uma empresa que ganhou visibilidade depressa
A CXMT ganhou projeção internacional com a sua oferta pública inicial de julho no STAR Market de Xangai. No primeiro dia de negociação, as ações subiram quase 466%, tornando a companhia a empresa cotada na China com maior valor de mercado naquele momento. Desde o preço de 49 yuan no dia da estreia, as ações caíram 4%, segundo a CNBC, mas a capitalização bolsista continuava em 3,46 biliões de yuan, cerca de 520 mil milhões de dólares.
Esse valor aproximava-se dos 3,87 biliões de yuan atribuídos à Tencent. Sediada em Hefei, a CXMT foi fundada em 2016 e chegou à bolsa aproximadamente uma década depois. Antes da oferta pública inicial, era pouco conhecida fora da China. O crescimento da sua visibilidade aumentou também o peso das suas declarações tecnológicas nos mercados globais, sobretudo porque a empresa é apresentada como a principal rival chinesa dos grandes produtores internacionais de memória.
Concorrência, controlos e procura interna
A empresa enfrenta limitações importantes. Os controlos de exportação dos Estados Unidos restringiram o acesso chinês a equipamento de fabrico de chips, incluindo as máquinas de litografia ultravioleta extrema, ou EUV, da ASML, necessárias para fabricar os semicondutores mais avançados. A existência dessas restrições torna prematuro concluir que o anúncio da CXMT elimina a diferença tecnológica face aos líderes mundiais.
Apesar dessas dificuldades, a CXMT terá ganho quota. Uma nota do HSBC, citada pela CNBC, estimou que a sua participação no mercado mundial de DRAM chegou a cerca de 10%, contra aproximadamente 4% um ano antes. A procura doméstica chinesa é um apoio relevante para a empresa. Analistas da Citi afirmaram em agosto que é improvável que o governo norte-americano permita vendas de memória fabricada na China nos Estados Unidos, mas que vendas a centros de dados noutras regiões, como a Europa, poderiam afetar indiretamente a Micron.
A Apple começou a testar chips DRAM da CXMT para aparelhos vendidos dentro da China, segundo uma notícia do Financial Times de julho citada pela CNBC e baseada em pessoas familiarizadas com o assunto. O mesmo jornal informou que a Apple procurava convencer o governo dos Estados Unidos a permitir uma utilização mais ampla dos produtos da empresa. A Apple foi contactada para comentar. Estes elementos devem ser entendidos como relatos atribuídos, e não como confirmação pública de uma expansão comercial já concretizada.
Pressão sobre as expectativas da IA
A venda ocorreu também depois de Hock Tan, diretor executivo da Broadcom, comparar muitos investidores em IA a jogadores de casino. Segundo comentários divulgados pela Bloomberg e reproduzidos pelo Guardian, Tan disse que parte dos investidores não compreendia plenamente aquilo em que estava a apostar e criava expectativas extremas. A observação ampliou receios sobre avaliações elevadas de empresas associadas à IA e sobre investimentos financiados por dívida.
Tan referiu que a receita anualizada de 50 mil milhões de dólares da OpenAI no fim de setembro apontava para um modelo de negócio viável, mas não garantia rentabilidade de longo prazo. Segundo ele, a empresa continuava a perder dinheiro devido aos gastos com treino. Também observou que uma parcela significativa das receitas empresariais dos laboratórios de IA vinha de projetos-piloto. Estas declarações são opiniões do executivo, não uma avaliação financeira independente do conjunto do setor.
Para empresas e organizações em Portugal, a principal mudança é a necessidade de acompanhar com mais atenção o custo e a disponibilidade de memória para servidores, equipamentos de armazenamento e serviços de computação para IA. A notícia não demonstra uma alteração imediata no fornecimento local. Mostra, porém, que avanços anunciados por novos concorrentes podem influenciar preços, margens e decisões de investimento em infraestrutura digital muito antes de um novo produto chegar ao mercado.
Fontes
- Why this little known Chinese chipmaker has caused a global stock routCNBC Technology · 13 de outubro de 2026
- Chip stocks slide after Broadcom boss likens AI investing to ‘casino’The Guardian — AI · 13 de outubro de 2026



