OCDE alerta para riscos da dívida e ações da IA no mundo
A OCDE adverte que o endividamento do setor de inteligência artificial e as avaliações bolsistas esticadas colocam forte pressão sobre as taxas de juro globais.

No seu mais recente relatório Interim Economic Outlook, divulgado esta quarta-feira, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) traçou um quadro detalhado sobre as forças que sustentam a economia mundial em 2026, destacando em simultâneo vulnerabilidades financeiras crescentes associadas à rápida expansão da inteligência artificial (IA). Embora o investimento maciço em infraestruturas digitais, centros de dados e semicondutores continue a funcionar como um dos motores centrais da atividade económica global, a organização adverte para o modo como as empresas do setor tecnológico se estão a financiar e para a desconexão existente entre as elevadas cotações bolsistas e a subida dos custos de financiamento.
Segundo a análise da instituição internacional, as crescentes preocupações em torno da sustentabilidade das contas públicas e a pesada emissão de dívida empresarial de longo prazo por parte das empresas de IA constituem fatores determinantes que colocam forte pressão em alta sobre as taxas de mercado e sobre os prémios de prazo exigidos pelos investidores para deter obrigações. Esta concorrência direta entre a emissão de dívida corporativa tecnológica e os títulos soberanos contribuiu para que as taxas de juro de longo prazo atingissem os níveis mais elevados em 15 anos ou mais na generalidade das grandes economias avançadas.
Desconexão de avaliações e riscos de contágio no setor produtivo
Apesar deste aumento continuado no custo do dinheiro, as métricas de avaliação convencionais revelam que os mercados de ações permanecem esticados, em particular nos segmentos tecnológicos, mostrando pouca sensibilidade à trajetória das taxas soberanas. Os técnicos da OCDE alertam que as previsões dos analistas exigem um crescimento de lucros excecionalmente rápido nos próximos anos para justificar as cotações atuais. Em paralelo, a organização assinala a crescente dependência do setor de IA face a instrumentos de dívida e estruturas financeiras complexas, acompanhada por sinais de risco de crédito que podem exponenciar movimentos bruscos caso o sentimento dos mercados se inverta.
Um crescimento de lucros desapontante poderia abrandar de forma material o investimento no setor, transmitindo-se a outras indústrias associadas, como a engenharia e a construção, e resultar na deterioração das avaliações nos mercados financeiros.
O relatório detalha ainda que os retornos do capital investido em IA podem demorar mais tempo a concretizar-se ou desapontar as projeções em virtude de estrangulamentos operacionais severos, nomeadamente a disponibilidade de eletricidade e a oferta de semicondutores avançados. Se as empresas de IA falharem as metas de rendibilidade, o impacto não se circunscreverá às ações tecnológicas, travando também os projetos de construção civil, o desenvolvimento de engenharia pesada e a capacidade de investimento de toda a cadeia de fornecimento. Além disso, a manutenção de taxas soberanas elevadas pode, por si só, diminuir a rendibilidade destas cotadas e desencadear correções em cadeia nas praças financeiras.
Projeções macroeconómicas e os limites do cenário central
No plano macroeconómico alargado, a OCDE reviu em alta a previsão de crescimento mundial para 2,9% em 2026 (face aos 2,8% anteriores) e para 3,0% em 2027 (contra 2,9%). O desempenho económico global absorveu melhor do que o esperado o choque energético ligado à guerra com o Irão, apoiado pela libertação de reservas estratégicas de petróleo, pela redução das importações de energia pela China e pelo recurso a combustíveis alternativos como o carvão. O crescimento dos Estados Unidos foi revisto para 2,2% em 2026 e 2,1% em 2027, impulsionado pelo investimento em IA. Na Zona Euro, o Produto Interno Bruto deverá avançar 1,0% em 2026 e 1,0% em 2027. O Japão deverá crescer 0,8% em 2026 e 0,7% em 2027, enquanto o Reino Unido deverá registar 1,1% em 2026 e 1,0% em 2027. Para a China, a previsão mantém-se em 4,5% em 2026 e desce para 4,2% em 2027. O Canadá viu a previsão reduzida para 0,9% em 2026 e 1,3% em 2027 devido a novas tarifas aduaneiras norte-americanas.
- A inflação média do G20 foi revista em alta para 4,1% em 2026 (face a 4,0%) e para 3,6% em 2027 (face a 3,1%), prolongando o período de juros restritivos.
- Tensões adicionais nos mercados de energia provocadas pelo conflito no Médio Oriente e o nível de armazenamento de gás na Europa no mínimo de 15 anos.
- Ocorrência de um fenómeno meteorológico El Niño excecionalmente forte com impacto negativo na produção agrícola e pressão nos preços alimentares.
- Possibilidade de retornos desapontantes no setor de IA combinados com a subida das taxas obrigacionistas, o que num cenário adverso acumulado retiraria 0,7 pontos percentuais ao PIB mundial em 2027 e adicionaria 1,1 pontos percentuais à inflação.
Impactos operacionais para empresas e organizações
Para as empresas e organizações que planeiam projetos tecnológicos ou dependem de crédito nos mercados de capitais, estas conclusões reforçam a necessidade de rigor na avaliação do retorno real sobre o investimento em soluções de inteligência artificial. O encarecimento da dívida pública e corporativa traduz-se em custos de financiamento mais altos e numa exigência reforçada de demonstração de ganhos de produtividade tangíveis antes de comprometer grandes volumes de capital. Ao mesmo tempo, os gestores de setores associados, como a engenharia, infraestruturas elétricas e construção, enfrentam o desafio de calibrar a sua capacidade instalada perante o risco de abrandamento súbito nas encomendas de centros de dados, caso as receitas dos operadores tecnológicos não correspondam às expectativas dos mercados financeiros.
Fontes
- OCDE alerta para risco oculto da inteligência artificial nas bolsas e na dívidaECO · 24 de setembro de 2026
- OECD lifts projections for global economy amid AI boomXTB · 23 de setembro de 2026



