Guerra de preços na IA: Google reduz, DeepSeek quadruplica
Em três dias, os dois extremos do mercado se moveram em direções opostas. O Google lançou o Gemini 3.7 Flash pela metade do preço, vinte e três dias após o modelo anterior; a DeepSeek elevou suas tarifas em mais de quatro vezes. Para as empresas, o detalhe está nas letras miúdas — e o novo agente do Google ainda não chega à Europa.

O Gemini 3.7 Flash chegou na quinta-feira, 13 de agosto, vinte e três dias depois do Gemini 3.6 Flash. Esse ritmo já não é um calendário de produto, mas uma cadência de tiro, e revela algo sobre a posição do Google: a linha Flash reúne os modelos rápidos e baratos, feitos para grande volume e agentes automatizados. O que ainda falta, porém, é o modelo de ponta. O Gemini 3.5 Pro, prometido na conferência de desenvolvedores de maio e testado com parceiros em julho, continua sem aparecer.
Muito Flash, ainda sem Pro
No papel, a nova versão avança claramente em programação: o Google afirma um salto de 49% para 65,3% no teste DeepSWE, de 34,4% para 43,6% em outro exercício de código, e uma pontuação de automação de tarefas quase dobrada. São medições internas, sem validação independente publicada, e por isso merecem ser lidas com reserva. O contexto interno também não convida ao otimismo: a divisão DeepMind passou por uma reformulação completa na semana anterior, com seu chefe histórico cedendo lugar ao vice enquanto dois responsáveis técnicos por trás do Gemini deixavam a empresa para fundar a própria.
O verdadeiro anúncio estava na tabela de preços
O Gemini 3.7 Flash é cobrado a 0,75 dólar por milhão de unidades de texto na entrada e 3,75 dólares na saída, metade do preço de lançamento do modelo anterior. Trata-se de uma promoção válida até o fim do ano, antes de voltar ao preço cheio. A escolha estratégica é clara: em vez de correr atrás do melhor modelo do mundo, vender processamento em massa pelo preço mais agressivo possível.
Só que esse terreno já está ocupado. A DeepSeek vinha cobrando cerca de 0,14 dólar por milhão de unidades na entrada por sua versão rápida, cinco vezes menos que o Google, e distribui seus modelos sob licença aberta — qualquer empresa pode instalá-los em seus próprios servidores sem pagar a ninguém. A Qwen, da Alibaba, joga a mesma partida com uma licença permissiva e centenas de variantes disponíveis para download. GLM, Kimi e MiniMax completam uma oferta chinesa que transformou o corte de preços em estratégia industrial.
A guinada da DeepSeek
É exatamente aí que a semana fica interessante. Em 13 de agosto, a DeepSeek anunciou em seu próprio site uma nova tabela, em vigor a partir do dia 16. O DeepSeek-V4-Flash passa a custar 1,32 dólar por milhão de tokens gerados em horário de pico, ante 0,28 dólar antes — um aumento de mais de quatro vezes. O V4-Pro segue a mesma lógica, a 3,96 dólares ante 0,87. Os horários de menor movimento continuam cobrados pela metade do preço, com a empresa admitindo que quer suavizar a demanda pelo preço em vez de pela fila de espera.
- Gemini 3.7 Flash: 0,75 $ na entrada, 3,75 $ na saída por milhão de unidades — promoção até o fim de 2026.
- DeepSeek-V4-Flash: 1,32 $ na saída em horário de pico, ante 0,28 $ antes de 16 de agosto.
- DeepSeek-V4-Pro: 3,96 $ na saída em horário de pico, ante 0,87 $ anteriormente.
- Para efeito de comparação, o Kimi K3 é cobrado a 15 $ e o Fable 5 a cerca de 50 $ por milhão de tokens gerados.
Mesmo depois desse aumento, a DeepSeek continua muito abaixo da maioria dos concorrentes: a Moonshot cobra quinze dólares por milhão de tokens gerados pelo Kimi K3, e a Anthropic cerca de cinquenta dólares pelo Fable 5, segundo comparações citadas pela Bloomberg. O movimento se explica menos pelos custos do que pelo calendário financeiro: a empresa de Hangzhou está captando recursos e mira uma abertura de capital já em 2026. Em outras palavras, o preço mínimo do mercado nunca foi um equilíbrio econômico, mas uma posição de conquista que o próprio autor começa agora a abandonar.
O que as empresas brasileiras ganham com isso
Duas consequências práticas merecem atenção do lado brasileiro. A primeira é contábil: as tarifas usadas hoje para montar um orçamento de automação são, dos dois lados, tarifas políticas — uma promoção no Google, uma posição de conquista que a DeepSeek começa a abandonar. Um plano de carga calculado com os preços de agosto de 2026 precisará ser refeito em janeiro.
A segunda é geográfica. O novo modelo alimenta o Spark, o agente pessoal do Google que deve executar tarefas no lugar do usuário, reservado a assinantes pagantes e distribuído em mais de 160 países — o Espaço Econômico Europeu, a Suíça e o Reino Unido ficam de fora, sem explicação oficial, a mesma exclusão que a Apple reservou à nova geração da Siri. O Brasil não consta nessa lista de exclusões, mas o episódio mostra que a disponibilidade de um agente de IA pode variar por país tanto quanto seu preço. Para uma empresa brasileira que planeja automação, a pergunta não é só qual modelo custa menos, mas qual estará de fato acessível para suas equipes, hoje e depois de janeiro.
Fontes
- Gemini 3.7 Flash : Google délaisse les modèles de pointe pour affronter les IA chinoises sur le prix01net · 15 de agosto de 2026
- DeepSeek augmente brutalement le prix de ses modèles V4 : voici pourquoiLeBigData · 14 de agosto de 2026



