Ferramentas de IA tornam‑se porta de entrada para notícias no Reino Unido, revela relatório da Ofcom
O News Report 2026 da Ofcom mostra que mais de um quinto dos adultos britânicos recorre a aplicações de inteligência artificial para ver ou ouvir notícias, mas a confiança ainda favorece o jornalismo humano.

O relatório anual da Ofcom sobre o consumo de notícias revela uma mudança significativa nos hábitos dos britânicos. Segundo os dados recolhidos por Emerce e LBC, 21 % dos adultos no Reino Unido utilizaram, no mês anterior, alguma aplicação ou serviço de inteligência artificial para aceder a notícias, quer seja para ler um resumo, ouvir um podcast gerado por IA ou ver um vídeo sintetizado. Este número representa um salto notável em relação aos anos anteriores e indica que a IA já se posiciona como uma porta de entrada importante para o conteúdo informativo.
Entre as várias ferramentas analisadas, o ChatGPT destaca‑se como a mais citada, respondendo a 13 % dos inquiridos. O uso da IA está mais concentrado entre os jovens adultos e nas famílias com rendimentos mais elevados, indicando que a tecnologia ainda depende de um nível de literacia digital e de recursos financeiros para ser plenamente adotada. Essa concentração sugere que, enquanto a penetração se amplia, ainda há barreiras socio‑econômicas que limitam o acesso universal.
Confiança versus adoção
O que diz o anúncio
Apesar do crescimento no uso, a confiança nos conteúdos gerados por IA ainda é limitada. O mesmo estudo indica que 56 % dos participantes confiam menos num resumo ou notícia produzida por IA do que num texto escrito por um ser humano. Esse fosso entre adoção e confiança sugere que, embora os utilizadores estejam dispostos a experimentar a tecnologia, ainda a consideram menos fiável, sobretudo em contextos críticos como eleições ou crises. A percepção de risco persiste, reforçando a necessidade de mecanismos de verificação e de transparência que possam reduzir a suspeita.
Os canais de descoberta
Os limites que permanecem
As redes sociais e plataformas de vídeo continuam a ser os intermediários predominantes. Cerca de 60 % dos adultos britânicos afirmam descobrir notícias através de um meio online, com destaque para Facebook (39 %), YouTube (33 %), TikTok (20 %) e Instagram (26 %). Entre os jovens de 16 a 24 anos, esse número sobe para 78 %, revelando a importância de plataformas visualmente orientadas na difusão de informação. Essa dependência dos canais digitais cria um ecossistema onde a IA pode ser utilizada como ferramenta de curadoria, mas também onde a desinformação pode proliferar rapidamente.
- 73 % dos utilizadores acedem a notícias via intermediário online;
- 57 % visitam directamente os sites ou aplicações dos editores;
- 2 % dependem exclusivamente das redes sociais;
- 37 % do tempo diário dedicado a notícias passa por plataformas intermediárias.
O tempo médio diário dedicado à notícia subiu para 72 minutos, um aumento face aos 61 minutos do ano anterior. Contudo, a televisão perdeu terreno, passando de 31 % para 25 % do consumo total de notícias, enquanto as plataformas digitais e a IA absorvem uma parcela crescente desse tempo. Esse deslocamento reflete não só a mudança de preferências de formato, mas também a conveniência de receber informação sob demanda, algo que a inteligência artificial facilita ao gerar resumos instantâneos.
O que as organizações devem verificar
Implicações para editores e reguladores
A análise da Ofcom sublinha a necessidade de os editores adaptarem as suas práticas de publicação. É essencial garantir que os resumos gerados por IA incluam atribuição clara, links para a fonte original, correções visíveis, data de publicação e contexto suficiente para que os algoritmos dos agregadores possam interpretar corretamente a informação. Sem esses elementos, a credibilidade pode ser ainda mais comprometida, alimentando a desconfiança já observada entre os consumidores.
Para os leitores, a recomendação é simples: verificar sempre a origem da notícia, sobretudo em períodos eleitorais ou de crise, e não assumir que um texto produzido por IA tem a mesma credibilidade que um jornalismo humano tradicional. Essa prática de verificação ativa ajuda a mitigar o risco de aceitar informações imprecisas ou manipuladas.
Empresas e instituições portuguesas que operam no mercado britânico devem estar atentas a estas tendências. Ao integrar ferramentas de IA nos seus fluxos de comunicação, precisam de assegurar transparência e responsabilidade, reforçando a confiança dos consumidores portugueses que, embora fora do Reino Unido, partilham hábitos digitais semelhantes. Em particular, devem garantir que cada conteúdo gerado por IA seja acompanhado de uma declaração de origem, de forma a que o público possa identificar rapidamente se a informação provém de um editor reconhecido ou de um algoritmo.
Em resumo, as organizações que pretendem manter a credibilidade no panorama britânico devem focar‑se na clareza das fontes, na correção visível das informações e na contextualização adequada, assegurando que a IA seja um auxílio, e não um substituto, do jornalismo humano.
Fontes
- AI dringt door tot het dagelijks menu nieuwsvoorzieningEmerce · 16 de setembro de 2026
- Ofcom report reveals one in five Britons uses AI to keep up with newsLBC · 15 de setembro de 2026



