A crescente impopularidade dos centros de dados de IA nos Estados Unidos
Vários inquéritos recentes revelam que a maioria dos eleitores americanos se opõe à instalação de centros de dados destinados à inteligência artificial nas suas comunidades, citando preocupações ambientais, sociais e de regulação.

Um estudo divulgado pelo The Verge, baseado num inquérito conjunto do New York Times e Siena, entrevistou 1 503 eleitores prováveis no início de setembro. Os resultados revelam que uma maioria clara, 61 % dos participantes, manifesta oposição à construção de centros de dados de IA, enquanto apenas 14 % expressam apoio firme. Esses números indicam que, apesar do entusiasmo tecnológico em alguns círculos, a perceção pública nos Estados‑Unidos permanece predominantemente negativa quando se trata de instalar infra‑estruturas de IA nas comunidades locais.
Motivações da oposição
Os entrevistados que se opõem ao projeto apontam várias razões que se complementam entre si. A preocupação ambiental lidera a lista, com 32 % dos respondentes a citar o consumo de água como fator decisivo, refletindo o medo de que a intensiva necessidade hídrica dos centros de dados possa agravar a escassez em regiões já vulneráveis. Em seguida, 21 % mencionam o impacto nas comunidades locais, temendo ruído, tráfego adicional e alterações no estilo de vida. A desconfiança geral em relação à inteligência artificial, expressa por 18 % dos participantes, revela um ceticismo mais amplo sobre os riscos éticos e de privacidade associados a estas tecnologias. Ainda, 10 % defendem a necessidade de uma regulamentação mais robusta antes de avançar, enquanto 9 % focam em argumentos económicos, como a distribuição desigual de benefícios e custos.
Diferenças partidárias
A análise dos dados partidários demonstra que as preferências variam significativamente entre os diferentes grupos eleitorais. Entre os eleitores que apoiam Donald Trump nas eleições de 2024, quase metade, 49 %, mostra-se favorável à presença de centros de dados, enquanto 45 % se opõe. Por outro lado, os eleitores de Harris e os abstencionistas revelam uma resistência muito mais forte, com 74 % e 67 % respectivamente a rejeitar a instalação desses empreendimentos. Embora esses percentuais não devam ser extrapolados para a população total, eles sublinham a polarização interna dentro da amostra e sugerem que as posições partidárias podem influenciar a aceitação de projetos de IA.
Perspetiva Gallup
Um inquérito da Gallup, realizado entre 2 e 18 de março, reforça a ideia de que a oposição é generalizada. Segundo a pesquisa, 71 % dos americanos se opõem a um centro de IA na sua zona, dos quais 48 % são fortemente contrários. Apenas um quarto dos entrevistados manifesta algum grau de apoio, com 7 % a expressar forte aprovação. Para contextualizar, a mesma pesquisa indica que 53 % dos inquiridos são contra a construção de uma central nuclear local, o que coloca a resistência aos centros de dados de IA num patamar ainda mais elevado.
Factores regionais
A Gallup aponta ainda que a oposição é mais pronunciada nas regiões do Midwest e do Sul, embora esteja presente em todos os grandes grupos demográficos. As variações regionais refletem, em parte, diferenças na disponibilidade de recursos hídricos e nas prioridades económicas locais, mas não anulam o sinal nacional de desconfiança. Esse sentimento de ceticismo constitui um obstáculo significativo para os projectos de infra‑estrutura de IA, exigindo estratégias adaptadas a contextos regionais específicos.
- Consumo de água e recursos hídricos
- Impacto ambiental e poluição
- Ruído e perturbação das comunidades locais
- Falta de transparência regulatória
- Risco de concentração de poder tecnológico
Implicações para desenvolvedores e autoridades
A acumulação de dados de diferentes inquéritos demonstra que a aceitabilidade local está a tornar‑se uma restrição crítica para a expansão de infra‑estruturas de IA. As empresas que pretendem avançar com projetos devem publicar informações detalhadas sobre consumo de água, energia, emissões de ruído, benefícios fiscais, criação de empregos sustentáveis e mecanismos de recurso. Paralelamente, as autoridades locais precisam garantir processos de consulta pública robustos e transparentes, de modo a envolver os residentes desde as fases iniciais e a responder a preocupações emergentes.
Estratégias de comunicação
Para melhorar a perceção pública, os promotores de centros de dados podem adotar abordagens que enfatizem benefícios tangíveis, como a geração de empregos qualificados e o aumento das receitas fiscais para as autarquias. No entanto, a confiança só será restaurada se houver demonstrações claras de responsabilidade ambiental, auditorias independentes e um quadro regulatório sólido que garanta a proteção dos recursos naturais e dos direitos dos cidadãos.
Conclusão para organizações portuguesas
Embora o estudo se centre nos Estados Unidos, as lições são diretamente relevantes para organizações portuguesas que pretendam instalar infra‑estruturas de IA. É essencial que verifiquem, antes de avançar, a disponibilidade hídrica local, realizem avaliações de impacto ambiental rigorosas, assegurem que os benefícios económicos sejam distribuídos equitativamente e estabeleçam mecanismos de participação pública transparentes. Só assim poderão superar a resistência e garantir a viabilidade dos projetos de IA em território nacional.
Fontes
- AI and data centers are incredibly unpopular in every pollThe Verge · 16 de setembro de 2026
- Americans Oppose AI Data Centers in Their AreaGallup · 13 de maio de 2026



