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Mais de 80 atores britânicos pedem lei sobre a propriedade da voz

Nicola Coughlan, Matt Lucas, Hugh Bonneville e mais de 80 artistas assinaram uma carta aberta ao primeiro-ministro britânico Andy Burnham a pedir uma lei que dê a cada pessoa a propriedade legal da própria voz perante a clonagem por IA.

A redação nullbotPublicado a 29 de agosto de 20264 min de leituraFontes (2)
A atriz Nicola Coughlan numa antestreia de filme em 2024
US Luxury · CC BY 3.0 · Wikimedia Commons

Mais de 80 atores e figuras das indústrias criativas britânicas juntaram-se à Save Our Voices Now, uma campanha que reclama legislação que dê às pessoas a propriedade legal da própria voz e maior controlo sobre a sua clonagem por inteligência artificial. Nicola Coughlan, Matt Lucas, Hugh Bonneville, Luke Evans, Jen Brister, Siobhán McSweeney e Pearl Mackie contam-se entre os signatários de uma carta aberta enviada ao primeiro-ministro Andy Burnham, a par de uma petição lançada no sítio oficial de petições do governo, o Gov.uk.

A clonagem de voz consiste em treinar um sistema de IA com uma breve gravação da voz de uma pessoa, para depois gerar fala sintética nessa mesma voz, a dizer palavras que essa pessoa nunca disse de facto.

A carta pede que cada pessoa no Reino Unido veja reconhecida a propriedade da própria voz como parte dos seus direitos estatutários, de modo a que a sua clonagem por IA exija consentimento explícito. A campanha foi cofundada por Peter Caulfield, que descreveu a questão sem rodeios: "Em apenas três segundos, com o sistema de IA certo, a sua voz pode ser clonada, roubada e reinterpretada sem que o saiba. É um episódio de Black Mirror, só que isto não é ficção. Está a acontecer agora mesmo." Acrescentou que "o governo está a permitir que as empresas de IA roubem e lucrem com as vozes dos artistas sem o seu consentimento", ao mesmo tempo que deixa "criminosos usarem IA para clonar a identidade das pessoas e ameaçar toda a gente".

O que dizem os atores

Bonneville, conhecido por Paddington e Downton Abbey, encarou a questão como uma questão de identidade: "A minha voz é única, é minha, faz parte da minha identidade. A sua também. Vale a pena falar sobre isso." Sublinhou que a frase foi "escrita à mão, não gerada por uma IA".

McSweeney, colega de Coughlan em Derry Girls, foi mais longe e classificou a ameaça como existencial para toda a profissão: "Estou profundamente preocupada por a legislação, os contratos, as práticas de trabalho, a ética e os direitos dos artistas não estarem a ser considerados nem protegidos com a mesma rapidez com que a tecnologia de IA avança. Este é um problema existencial que precisa de ser regulado por lei o mais rapidamente possível. A minha voz é uma das minhas ferramentas." Afirmou não querer excluir a IA da indústria, mas manter o ser humano no processo: "Para nos adaptarmos e acompanharmos os avanços tecnológicos, não vejo por que razão deveríamos retirar o humano da equação. O nosso público quer essa ligação humana. Não a IA."

Uma ameaça que vai além da privacidade

A campanha cita ainda um número marcante: segundo ela, 28% dos adultos britânicos afirmam já ter sido alvo de um esquema de clonagem de voz, em que burlões usam uma cópia gerada por IA de uma voz conhecida — de um familiar, colega ou figura pública — para obter dinheiro ou informação. Alice Sockett, narradora de audiolivros e outra cofundadora da campanha, disse à BBC que o roubo de voz "aumenta a cada semana" e já representa "uma ameaça existencial para toda a nossa indústria".

A Dinamarca já deu esse passo

A Save Our Voices Now aponta a Dinamarca como prova de que legislar sobre esta matéria é possível: reformas recentes na lei dinamarquesa dão aos cidadãos a propriedade legal sobre o próprio rosto, corpo e voz, permitindo-lhes exigir a remoção de conteúdo gerado por IA sem autorização e pedir compensação quando este é usado sem consentimento. A campanha quer que Westminster siga esse exemplo em vez de esperar que o dano se acumule.

Nem todos os artistas concordam

O debate não é consensual, mesmo dentro da própria indústria. Alguns intérpretes estão a antecipar-se para proteger a sua voz: Harry Shearer, voz de várias personagens de Os Simpsons, afirmou já ter "falado com advogados" para impedir que a sua voz seja recriada após a sua morte. Outros acolheram a tecnologia de bom grado: o espólio de Gene Wilder autorizou recentemente o uso de uma versão da sua voz recriada por IA para narrar uma nova série de reality show da Netflix inspirada em Willy Wonka, com a sua viúva, Karen B. Wilder, a afirmar que isso levaria o seu "calor e imaginação... a uma nova geração, prestando ao mesmo tempo homenagem aos fãs que o adoram há décadas".

O que isto muda para os dobradores portugueses

Em Portugal, o mercado audiovisual assenta sobretudo em legendagem, mas a locução e a dobragem de animação, videojogos e audiolivros são uma área profissional em crescimento — e é aí que o desfecho desta campanha britânica mais diretamente se faz sentir. Levanta a questão de saber se as vozes destes profissionais poderão, no futuro, ser clonadas por IA para narrar outros conteúdos sem o seu consentimento nem remuneração. Portugal ainda não tem legislação específica sobre clonagem de voz por IA, apoiando-se apenas em direitos de autor e de imagem gerais. Caso o Reino Unido consiga aprovar esta propriedade legal da voz, juntar-se-ia à Dinamarca como mais um precedente europeu ao qual associações profissionais portuguesas poderiam recorrer para reclamar uma proteção semelhante.

Fontes

  1. Nicola Coughlan and Matt Lucas among stars backing campaign against AI voice cloningThe Guardian · 28 de agosto de 2026
  2. Nicola Coughlan, Matt Lucas, Hugh Bonneville and More Back Campaign Against AI Voice Cloning: 'An Existential Threat to Our Entire Industry'Variety · 28 de agosto de 2026

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