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Telecom no Reino Unido alerta: país pode ficar para trás na corrida da IA sem redes melhores

Andrea Donà, diretor de redes da VodafoneThree, diz estar envergonhado com a qualidade das redes móveis britânicas: a fibra avançou muito, mas o 5G está atrasado, alertam executivos do setor, o que pode travar a adoção de IA no país.

A redação nullbotPublicado em 29 de agosto de 20265 min de leituraFontes (2)
Uma torre de telecomunicações com várias antenas sob um céu azul
Budget Bizar · Pexels License · pexels.com

Altos executivos da indústria de telecomunicações britânica alertam que o Reino Unido corre o risco de ficar para trás na corrida global pela inteligência artificial caso suas redes fixas e móveis não sejam modernizadas muito mais rápido do que estão hoje. O debate público sobre infraestrutura de IA tem se concentrado nos data centers e em seu enorme apetite por energia e água. Mas, à medida que a adoção da IA se espalha, líderes do setor afirmam que as redes fixas e móveis, responsáveis pelo tráfego do dia a dia, enfrentarão uma pressão comparável, conforme consumidores e empresas gerarem um volume crescente de dados relacionados a IA.

Uma rede da qual se envergonhar

Andrea Donà, diretor de redes da VodafoneThree — a maior operadora móvel do Reino Unido, formada pela fusão entre Vodafone e Three —, afirma que as redes móveis do país já têm dificuldade para atender à demanda atual, quanto mais à de amanhã. A cobertura móvel no Reino Unido é pior que a dos 27 países da União Europeia e de todos os outros membros do G7, segundo análise recente do grupo de defesa do consumidor Which?, baseada em dados da empresa Opensignal. O Reino Unido ocupa a 57ª posição global em desempenho geral de rede, a 70ª em velocidades de download e a 55ª em confiabilidade para chamadas de vídeo, streaming e jogos.

Hoje eu me sinto envergonhado com o nível de qualidade das nossas redes.

Andrea Donà, diretor de redes, VodafoneThree

Segundo Donà, o Reino Unido merece o que marcas móveis como EE, O2 e VodafoneThree podem oferecer, mas o setor precisa de uma reforma regulatória para chegar lá — uma mensagem dirigida tanto a formuladores de políticas públicas quanto à própria indústria.

De Wembley ao cotidiano

Donà compara o risco de um colapso de rede causado pela IA às quedas de sinal que os usuários já sofrem em grandes eventos públicos — um show no estádio de Wembley, o Grande Prêmio da Grã-Bretanha em Silverstone, ou uma partida internacional de rúgbi em Twickenham, quando dezenas de milhares de celulares disputam a mesma capacidade local. Para ele, essas falhas pontuais e temporárias são um prenúncio do que a conectividade diária pode se tornar, quando a inteligência artificial passar a ser uma demanda constante sobre a rede, em vez de ocasional.

11 bilhões de libras para o 5G stand-alone, travados pelo licenciamento urbano

As principais operadoras móveis do Reino Unido estão investindo pesado em tecnologia 5G stand-alone, que libera capacidade muito maior e latência bem menor do que as redes atuais. Somente a VodafoneThree comprometeu 11 bilhões de libras para essa modernização. Mas o setor diz que atrasos no licenciamento urbano estão travando o avanço. Segundo Donà, a empresa não busca construir mais torres — na verdade, está reduzindo sua rede nacional de antenas em 30% —, mas precisa modernizar os sites que já opera. Cerca de 96% das atualizações necessárias são em sites existentes, afirma, mas mais da metade delas ainda exige algum tipo de licença de obra, um processo que as operadoras descrevem como lento e burocrático. Donà pede que o governo trate a reforma do licenciamento como uma política de crescimento de custo praticamente zero, observando que as operadoras, mesmo classificadas como infraestrutura crítica nacional, não recebem os mesmos benefícios fiscais e energéticos concedidos a setores como data centers, energia e água.

  • As redes móveis do Reino Unido ocupam a 57ª posição mundial em desempenho geral
  • 70ª posição global em velocidades de download
  • 55ª posição em confiabilidade para chamadas, streaming e jogos
  • Cobertura pior que a dos 27 países da UE e de todos os outros membros do G7
  • A VodafoneThree comprometeu 11 bilhões de libras para migrar ao 5G stand-alone
  • Cerca de 96% das atualizações necessárias são em sites já existentes, e mais da metade delas exige licença de obra

Uma questão 'incipiente' que tende a virar estratégica

Um segundo executivo sênior do setor, falando sob condição de anonimato, explicou que, embora a ligação entre IA e conectividade ainda seja limitada hoje, ela deve se tornar uma questão de competitividade nacional dentro de dois a três anos, quando a IA estiver embutida em uma nova geração de dispositivos do dia a dia. A comparação que ele traça é com a lenta expansão da fibra óptica completa na última década, que só virou prioridade política quando sua ausência começou a parecer uma desvantagem real. Seu alerta, dirigido tanto a formuladores de políticas quanto a empresas de IA, é que redes costumam ser uma preocupação secundária — até se tornarem o gargalo.

A rede não é o único gargalo

O déficit de conectividade do Reino Unido não é o único obstáculo enfrentado pelas operadoras para acompanhar o ritmo da IA. Um estudo global separado, da consultoria de tecnologia HTEC e divulgado pelo ITBrief UK, ouviu 255 executivos de alto escalão de operadoras de telecom nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Menos de um quarto, 24,8%, acredita que sua organização consegue escalar a IA rapidamente. Praticamente todos, 99%, relatam escassez crítica de talentos, mais aguda em cibersegurança e privacidade de dados, em IA e aprendizado de máquina, e em engenharia de dados. Quase metade, 47,5%, aponta a falta de alinhamento executivo como a maior barreira para escalar a IA, e 45,1% dizem ter dificuldade para integrar IA a sistemas legados de rede e TI. Pesquisadores da HTEC estimam que as operadoras têm, em média, menos de dois anos para fechar essa lacuna antes de ficarem para trás de forma permanente — um prazo que ecoa a urgência expressa pelos executivos britânicos sobre a capacidade física da rede.

Para empresas brasileiras que atuam no Reino Unido, ou que planejam oferecer serviços intensivos em IA a clientes britânicos, o recado é direto: será preciso conviver com capacidade móvel irregular por mais alguns anos. É também um alerta para o próprio Brasil: a modernização das redes móveis nem sempre acompanha o ritmo da fibra, e o caso britânico mostra que resolver um gargalo pode simplesmente revelar outro, mais caro de corrigir às pressas.

Fontes

  1. UK risks falling behind in AI race without faster telecoms upgrades, say executivesThe Guardian · 29 de agosto de 2026
  2. Telecom Chiefs Say AI Scaling Hampered by Skills GapsITBrief UK · 15 de maio de 2026

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