Desemprego de diplomados não confirma choque imediato da IA
A taxa de desemprego dos recém-diplomados norte-americanos no verão de 2026 não foi invulgar, embora a subocupação, a contratação lenta e a selecção automatizada mantenham a pressão.

Em 26 de Setembro de 2026, os dados disponíveis dos Estados Unidos não confirmam uma vaga generalizada de desemprego entre recém-diplomados causada pela inteligência artificial. Um documento de trabalho de investigadores associados ao CESifo, elaborado a partir de microdados do Current Population Survey do Census Bureau, conclui que não há prova de deslocamento significativo e disseminado, nem de uma redução relevante da contratação de diplomados recentes, em termos absolutos ou relativos.
A conclusão não equivale a dizer que os jovens licenciados encontram um mercado favorável. O Federal Reserve Bank de Nova Iorque indicou, para Junho, uma taxa de desemprego de 5,7% entre diplomados dos 22 aos 27 anos. O valor estava acima da média nacional e era um ponto percentual superior ao registado dois anos antes para a mesma faixa etária. Entre todos os trabalhadores jovens, a taxa era de 7,2%.
Uma fotografia sazonal, não uma previsão
Robert Fairlie e Jane Wu estudaram titulares de bacharelato entre os 22 e os 25 anos que não frequentavam estudos superiores. A sua opção metodológica assenta numa possibilidade plausível: se a IA reduzir a procura de trabalho, o efeito pode ser visível primeiro em menos admissões para funções de início de carreira, e não necessariamente em despedimentos de trabalhadores experientes. Muitas dessas funções incluem tarefas administrativas relativamente padronizadas.
Como o desemprego costuma aumentar no verão, quando entram no mercado novas vagas de finalistas, os autores compararam esse período ano a ano desde 2022. Esse foi o ano em que o emprego regressou aos níveis pré-pandemia e em que o ChatGPT foi lançado. A taxa de desemprego no verão de 2026 para o grupo analisado foi de 7,3%, dentro da amplitude observada anteriormente: 6,3% em 2022 e 7,8% em 2024.
O padrão não mudou de forma material quando foram incluídos diplomados que diziam querer emprego, embora não o procurassem activamente e, por isso, não fossem contabilizados como desempregados na definição oficial. Os investigadores compararam ainda os recém-diplomados com pessoas da mesma idade sem ensino superior e com diplomados entre os 30 e os 49 anos. Em quase todas as comparações, as diferenças de tendência entre 2022 e 2026 não foram estatisticamente significativas.
Porque os estudos parecem divergir
A conclusão do CESifo contrasta com um estudo recente da Universidade Stanford que detectou pior evolução do emprego de entrada em ocupações consideradas afectadas pela IA. As duas análises, contudo, não usam a mesma fonte nem a mesma medida. Stanford trabalhou com dados de folhas salariais da empresa de recursos humanos ADP; o novo estudo usa a recolha estatística mais vasta do Census. As bases podem captar diferentes segmentos da economia.
Além disso, os dados da ADP observam a oferta total de empregos em vários domínios, enquanto a taxa de desemprego depende tanto das vagas disponíveis como da procura de emprego. Se a oferta em certa actividade encolher e a procura também mudar, a taxa pode não reflectir um aumento excepcional. Assim, os dados do verão não demonstram que a IA não tenha efeitos; mostram apenas que ainda não se detecta um efeito amplo nesta métrica e nesta população.
Pressões visíveis, causalidade por provar
Os autores do documento reconhecem que a utilização empresarial de IA parece estar a intensificar-se. Referem um aumento recente de empresas que disseram, num inquérito do Census, substituir um grande número de tarefas de trabalhadores por IA. Referem também aumentos da despesa em IA por trabalhador e da utilização de tokens do ChatGPT Enterprise nos últimos 12 meses. São indícios de adopção crescente, não uma demonstração directa da causa de cada alteração no emprego.
- A taxa de desemprego de verão de 2026 entre recém-diplomados dos 22 aos 25 anos foi de 7,3%.
- Em Junho, o desemprego de diplomados dos 22 aos 27 anos era de 5,7%, segundo dados do Fed de Nova Iorque.
- A subocupação entre diplomados de anos recentes chegou a 42%, face a 33,7% para todos os diplomados.
- O Fed de Nova Iorque observou abrandamento geral da contratação, mas não concentrado nas funções iniciais com maior exposição à IA.
A subocupação ajuda a explicar por que razão a experiência dos novos diplomados pode ser difícil mesmo sem um aumento extraordinário do desemprego. A taxa para diplomados recentes que trabalham em empregos que não exigem bacharelato atingiu 42%, contra 33,7% entre o conjunto dos diplomados. O indicador não atribui a situação à IA, mas revela uma distância entre a formação obtida e o tipo de trabalho conseguido.
A entrada no processo é cada vez mais automática
A tecnologia também está a mudar a procura de emprego antes de haver uma contratação. Uma pesquisa do LinkedIn indicou que 66% dos recrutadores planeavam aumentar em 2026 o uso de IA na pré-selecção de entrevistas. Do lado dos candidatos, 81% disseram já ter usado ou pretender usar IA na procura de trabalho. A adaptação de currículos a cada anúncio e a demonstração clara de competências tornam-se, por isso, relevantes para ultrapassar filtros automáticos.
A plataforma Handshake indicou que os finalistas de 2026 mencionaram competências de IA nos currículos ao dobro da frequência da turma de 2022. Segundo a sua análise, 74% dessas referências estavam ligadas a projectos práticos, não apenas a unidades curriculares. A National Association of Colleges and Employers encontrou requisitos de IA em 16,5% das descrições de emprego na primavera, acima dos 10,5% do outono anterior. Porém, perto de um terço dos finalistas considerava estas competências pouco ou nada importantes para a carreira.
Em Portugal, estes números não devem ser usados como uma projecção automática para licenciados nacionais: a estrutura empresarial, os salários, a mobilidade e os mecanismos de contratação são distintos. Ainda assim, deixam uma advertência prática para estudantes e instituições: o debate não se resume a postos eliminados. Inclui subocupação, triagem automatizada, demonstração de trabalho aplicado e competências pedidas pelos empregadores. Para as turmas de 2027 e posteriores, serão precisos mais anos de dados para perceber se a maior intensidade de uso da IA produz efeitos mensuráveis na contratação.



