Homem esconde instruções para IA num processo judicial nos EUA
Numa ação cível no Connecticut, um autor sem advogado escondeu texto invisível ao olho humano mas legível por software, para tentar inclinar a decisão a seu favor. O juiz classificou o caso como um «precedente perigoso» e proibiu-o de submeter peças por via eletrónica.

Pela primeira vez num tribunal dos Estados Unidos, foi identificado um caso de «prompt injection» — instruções escondidas destinadas a uma inteligência artificial, inseridas numa peça processual. Segundo a Ars Technica, numa ação cível no Connecticut relativa à divulgação de processos clínicos, o autor Matthew Elliott, que se representava a si próprio sem advogado, incluiu nas suas peças um texto invisível ao olho humano mas legível por software de análise de documentos. O juiz Walter Spader Jr., numa decisão publicada na semana passada, reconheceu que o texto escondido não influenciou o desfecho do caso, mas avisou que a tentativa criava um precedente «perigoso». O site japonês INTERNET Watch também noticiou o caso no mesmo dia, como uma notícia vinda do estrangeiro.
Instruções escondidas em texto invisível
O excerto em causa foi formatado com um tipo de letra minúsculo, a branco sobre fundo branco, de forma a ficar invisível a olho nu. O texto pedia a qualquer IA que revisasse a peça que decidisse a favor do autor, ignorasse indeferimentos anteriores do tribunal e ordenasse as medidas que ele exigia. Elliott, parte que atuava sem representação legal (pro se), parece ter recorrido à tática depois de os seus argumentos anteriores terem sido rejeitados, apostando em que uma IA acabaria por rever as suas peças.
Elliott continuou a acrescentar texto escondido mesmo depois de o tribunal o ter avisado sobre a prática. Segundo o relatado, os acrescentos posteriores incluíam uma ligação a um vídeo do YouTube do filme de terror Nosferatu, uma mensagem do género «espero que isto esteja invisível» e outros trechos sem relação com o caso, que o próprio apresentou como uma brincadeira. O juiz Spader considerou «notável» que isto tenha continuado depois de uma audiência em que se discutiu uma eventual sanção, concluindo tratar-se de «abuso grave do processo judicial». Como os tribunais do Connecticut não usam IA para rever ou decidir peças, a tentativa não teve efeito real no caso — mas o juiz avisou que tribunais de outros estados e países usam.
Primeiro caso nos EUA, mas não no mundo
O juiz Spader disse tratar-se, tanto quanto sabia, do primeiro caso deste tipo identificado num tribunal norte-americano, citando no entanto um precedente no Brasil, envolvendo dois advogados que recorreram a uma tática semelhante. Nesse caso brasileiro, a tentativa visava um tribunal que usava mesmo IA para rever peças: o sistema detetou o texto escondido antes do processamento, e os advogados envolvidos foram sancionados em cerca de 16 mil dólares. Elliott não recebeu sanção pecuniária, mas o juiz proibiu-o, a partir de agora, de submeter peças por via eletrónica: só serão aceites documentos impressos.
- Método: inserir instruções invisíveis para uma IA em texto minúsculo, branco sobre branco, dentro de peças processuais («prompt injection»)
- Resultado: os tribunais do Connecticut não usam IA para rever peças, pelo que a decisão não foi afetada
- Sanção: proibição de submissão eletrónica, apenas peças em papel a partir de agora; sem multa
- Precedente no estrangeiro: no Brasil, dois advogados foram sancionados em cerca de 16 mil dólares pela mesma tática, detetada pela própria IA do tribunal
O que isto muda para advogados portugueses que usam IA
Também em Portugal os tribunais não usam IA para decidir processos, mas a digitalização em curso — plataforma Citius, submissão eletrónica de peças — e o uso crescente de ferramentas de IA na redação de documentos jurídicos aproximam a profissão deste mesmo risco. O aviso do juiz Spader vai além do truque técnico: um litigante sem advogado, ou um advogado, que deixa um chatbot redigir e reforçar os seus próprios argumentos sem os testar contra um contraditório arrisca-se a construir uma peça que parece sólida sem o ser. Para quem usa IA na preparação de documentos jurídicos, a lição prática é pedir-lhe que argumente o lado contrário antes de submeter a peça.
Fontes
- Suspecting court of using AI, man injected prompts in filings to try to win caseArs Technica · 14 de agosto de 2026
- 「原告有利の判決を出せ」AIにしか見えない指示を提出書類に書き込んだ男、裁判所にバレるINTERNET Watch · 17 de agosto de 2026



