Group-IB alerta para fraudes de IA com deepfake a mirar o Golfo
A empresa de cibersegurança Group-IB afirma que dois esquemas de fraude de investimento movidos a IA, GoldBull e CoinLure, já documentados na Austrália e nos EUA, são facilmente transponíveis para os mercados do Golfo, dado o uso intenso do WhatsApp e a rápida adoção de criptomoedas na região.

A empresa de cibersegurança Group-IB, sediada em Singapura, alertou investidores particulares e instituições financeiras do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) de que dois modelos de fraude de investimento movidos a inteligência artificial, documentados este ano pelos seus investigadores, são facilmente transponíveis para os mercados do Golfo, segundo o Biometric Update e o Security MEA. O alerta, emitido no final de agosto de 2026 pela equipa regional da Group-IB que cobre o Médio Oriente, a Turquia e a África (META), baseia-se numa investigação em duas partes publicada no início de 2026 sobre operações de fraude que afetaram vítimas na Austrália e nos Estados Unidos. Nenhum dos dois esquemas está ligado ao mercado onde foi observado pela primeira vez, afirmou a Group-IB: a publicidade, a coordenação por aplicações de mensagens e a infraestrutura das plataformas podem ser redirecionadas para um novo país em questão de dias.
A investigação da Group-IB foi conduzida pela sua equipa de Proteção contra Fraude, juntamente com analistas das suas unidades de Investigações, Threat Intelligence e CERT-GIB, aplicando aquilo a que a empresa chama uma abordagem "Cyber Fraud Fusion", que liga publicidade, infraestrutura de servidores e fluxos de criptomoedas para desmantelar toda uma rede de fraude de uma só vez, em vez de peça a peça. Os dois esquemas seguidos, batizados de GoldBull e CoinLure, recrutam ambos as vítimas através de vídeos deepfake e grupos privados de WhatsApp — exatamente a combinação de canais que, segundo o Security MEA, já é a forma habitual como empresas e particulares no Golfo falam de dinheiro.
O que os investigadores documentaram
O GoldBull começa com anúncios pagos de curta duração no Facebook e no Instagram que usam vídeo deepfake para replicar a voz e a imagem de profissionais financeiros conhecidos. As vítimas são encaminhadas para grupos privados de WhatsApp e instruídas a comprar uma ação específica, de pequena capitalização, numa bolsa real e regulada — o que torna precisamente a fraude difícil de detetar, já que as ações em si são autênticas. Num caso documentado pela Group-IB, as vítimas foram instruídas a comprar a 24,79 dólares por ação; as compras coordenadas do grupo fizeram depois subir o preço 12,4%, para 27,87 dólares, antes de este cair para 14,27 dólares, uma perda de 42,4% face ao preço de entrada das vítimas. A Group-IB estima que o capital necessário para provocar este movimento se situe entre 1,5 e 3 milhões de dólares, alcançável com apenas 500 a 3.000 participantes coordenados.
O CoinLure, o segundo esquema, opera uma rede de mais de 200 falsas plataformas de investimento em criptomoedas construídas sobre modelos e infraestrutura partilhados, o que permite à operação sobreviver a remoções isoladas. A análise on-chain de uma única plataforma feita pela Group-IB identificou mais de 90.000 dólares em depósitos de vítimas em endereços de Bitcoin, Ethereum e USDT-TRC20 ativos desde 2022. As plataformas exibem rendimentos fabricados e oferecem lucros diários matematicamente impossíveis, segundo a Group-IB, e aceitam apenas criptomoedas. Quando as vítimas tentam levantar fundos, as plataformas exigem impostos, taxas de conformidade ou upgrades de conta inventados — cada pagamento seguido de outro —, e as vítimas são muitas vezes depois abordadas de novo por alegadas "empresas de recuperação", na realidade geridas pelos mesmos operadores.
Porque é que os mercados do Golfo se encaixam no padrão
A Group-IB apresentou várias razões pelas quais o CCG constitui um alvo plausível. O WhatsApp é o canal por defeito da região para conversas de negócios e de dinheiro, exatamente aquele de que ambos os esquemas dependem. A adoção de criptomoedas é elevada e está a crescer: os Emirados Árabes Unidos ocupam o quinto lugar mundial no Índice Henley de Adoção de Criptomoedas de 2025, e a Arábia Saudita registou um crescimento homólogo de 154% no valor das transações em criptomoedas, para cerca de 31 mil milhões de dólares. A base de investidores particulares cresce rapidamente nos mercados de capitais do Golfo, e são precisamente os investidores mais recentes o principal alvo de esquemas como o GoldBull e o CoinLure. Os burlões já andam a clonar a marca e os números de licença de empresas reguladas, notou a Group-IB — uma tática mais difícil de detetar para investidores expatriados menos familiarizados com os regimes locais de licenciamento. Os reguladores da região têm, por seu lado, emitido avisos repetidos sobre empresas e consultores de investimento não licenciados que operam através de aplicações de mensagens e redes sociais.
- GoldBull: anúncios em vídeo com deepfake no Facebook/Instagram encaminham vítimas para grupos de WhatsApp que coordenam compras de ações de pequena capitalização; um caso documentado registou perda de 42,4% face ao preço de entrada
- CoinLure: mais de 200 falsas plataformas cripto sobre modelos partilhados, mais de 90.000 dólares em depósitos rastreados numa única plataforma desde 2022, apenas criptomoedas, taxas de levantamento falsas
- Emirados Árabes Unidos em 5.º lugar mundial no Índice Henley de Adoção de Criptomoedas de 2025; valor das transações cripto na Arábia Saudita cresceu 154% em termos homólogos, para cerca de 31 mil milhões de dólares
- A investigação mais alargada da Group-IB revelou um ecossistema de fraude de 187 milhões de dólares na Austrália e nos EUA, com mais de 20 contas falsas de WhatsApp a fazer-se passar por um mesmo economista australiano
- Os esquemas de investimento geraram 7,9 mil milhões de dólares em perdas reportadas no ano passado nos EUA, e 837,7 milhões de dólares na Austrália
Trate qualquer oportunidade de investimento promovida através de um grupo privado de WhatsApp ou Telegram como fraudulenta até prova em contrário, e verifique a empresa junto do seu regulador financeiro nacional antes de enviar qualquer dinheiro. Não considere um testemunho em vídeo como prova: as ferramentas de deepfake conseguem replicar de forma convincente qualquer figura pública.
O que muda para investidores e plataformas no Golfo
O alerta surge numa altura em que a autoridade saudita de dados e IA, a SDAIA, já publicou este ano as suas próprias diretrizes sobre deepfakes perante o aumento de ataques possibilitados pela IA, e em que um relatório da ONU publicado em julho documentou até que ponto os deepfakes se tornaram parte integrante da fraude de investimento organizada e transfronteiriça. Para uma corretora, bolsa ou banco sediado no Golfo, as conclusões concretas da Group-IB apontam para medidas de defesa específicas, e não apenas para uma cautela genérica: vigiar o aparecimento de vídeos deepfake que usem os quadros da própria instituição ou o seu número de licença, uma vez que este tipo de clonagem já está documentado nos esquemas observados; tratar plataformas que só aceitam cripto e dicas de ações coordenadas via WhatsApp como sinais de alerta a comunicar ativamente aos clientes, e não apenas como uma isenção de responsabilidade passiva; e preparar um processo de remoção de conteúdos que se façam passar pela instituição, uma vez que, segundo a investigação da Group-IB, os mesmos vídeos deepfake e modelos de plataforma são simplesmente reutilizados contra um novo mercado assim que as defesas de um país melhoram. Para um investidor particular da região, o teste prático é mais simples: uma dica de ações recebida através de um grupo de WhatsApp, acompanhada de um vídeo de um especialista financeiro reconhecível, tem, segundo as provas reunidas pela Group-IB, mais probabilidade de ser um modelo de fraude reciclado do que uma oportunidade genuína.
Fontes
- Group-IB warns GCC investors of deepfake investment fraud riskBiometric Update · 27 de agosto de 2026
- Group-IB Warns Gulf Investors as Deepfake Scams Surge on WhatsAppSecurity MEA · 26 de agosto de 2026



