Estudo de Stanford: a IA afeta primeiro os empregos júnior
Um estudo do Stanford Digital Economy Lab mostra que o emprego dos jovens de 22 a 25 anos em profissões muito expostas à IA está cerca de 19% abaixo do dos pares, face aos 13% de há um ano.

Um novo estudo do Stanford Digital Economy Lab, publicado a 24 de agosto de 2026, mostra que a inteligência artificial está a afetar mais fortemente os trabalhadores mais jovens que entram no mercado de trabalho. Intitulado «Canaries in the Coal Mine? Six Facts about the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence», o estudo atualiza uma versão publicada pela mesma equipa um ano antes. O seu autor principal é Erik Brynjolfsson, diretor do laboratório, com Bharat Chandar e Ruyu Chen.
A conclusão central é clara: o emprego entre trabalhadores de 22 a 25 anos em profissões consideradas muito expostas à IA está hoje cerca de 19% abaixo do observado em profissões menos expostas à tecnologia. Há um ano, na última medição da mesma equipa, essa diferença era de 13%. A diferença, portanto, não só existe: está a aumentar.
Para chegar a esta conclusão, os investigadores utilizaram uma vasta subamostra de dados de processamento salarial anonimizados e de alta frequência, agregados pela ADP, a maior processadora de salários dos Estados Unidos. O conjunto de dados abrange milhões de trabalhadores em mais de 730 profissões — cerca de um em cada seis trabalhadores norte-americanos. A equipa mediu a exposição de cada profissão à IA através de duas ferramentas distintas: um indicador de impacto no mercado de trabalho estabelecido por investigações anteriores, e o Anthropic Economic Index, que mede como cada profissão utiliza realmente o modelo Claude no dia a dia. Um mês antes, a Google tinha publicado um relatório semelhante baseado no uso real do Gemini.
Sem despedimentos em massa, mas uma torneira de contratação que se fecha
No conjunto da economia, os investigadores encontraram pouca ou nenhuma diferença de emprego relativo entre as profissões mais e menos expostas à IA. O efeito concentra-se quase inteiramente nos trabalhadores mais jovens. Desde 2022, o emprego dos jovens de 22 a 25 anos nas 40% de profissões mais afetadas pela IA caiu cerca de 11%, enquanto o emprego jovem nas 60% de profissões menos afetadas cresceu cerca de 10% no mesmo período.
A TIME, que também noticiou o estudo, cita uma medida distinta: nas profissões mais expostas à automatização por IA — engenharia de software, marketing e apoio ao cliente, entre outras —, os trabalhadores em início de carreira sofreram um declínio relativo de emprego de 16%, mesmo depois de controlados os efeitos próprios de cada empresa. A Ars Technica e a TIME apresentam estes números como ângulos distintos sobre os mesmos dados, não como uma única medida repetida duas vezes, e o padrão de fundo mantém-se em ambos os casos: o dano recai sobre a contratação, não sobre os postos já ocupados. Os investigadores constataram que o efeito passa sobretudo por uma queda nas contratações de trabalhadores iniciantes nas profissões afetadas, não por mais despedimentos ou demissões voluntárias. Manifesta-se sobretudo no nível geral de emprego, não nos salários.
- 19%: diferença de emprego entre jovens de 22 a 25 anos nas profissões mais expostas à IA e os seus pares, face aos 13% de há um ano
- 11% contra 10%: desde 2022, o emprego jovem caiu cerca de 11% nas 40% de profissões mais afetadas pela IA, e cresceu cerca de 10% nas 60% menos afetadas
- 16%: declínio relativo do emprego de nível inicial medido separadamente nas profissões mais expostas à automatização (engenharia de software, marketing, apoio ao cliente), controlando efeitos de empresa (TIME)
- 6% a 12%: crescimento do emprego de trabalhadores com 30 ou mais anos em profissões de forte exposição à IA, entre o final de 2022 e maio de 2025 (TIME)
Porque é que umas profissões sim e outras não: automatizar ou aumentar
O Anthropic Economic Index distingue usos «automatizadores» da IA, que substituem por completo uma tarefa antes feita por uma pessoa, de usos «aumentativos», que ajudam um trabalhador a ser mais eficiente na sua função. Profissões como contabilistas e auditores, ou rececionistas e funcionários de informação, figuram entre as mais suscetíveis de automatização. Profissões como diretores executivos e enfermeiros registados utilizam a IA de forma mais aumentativa.
As profissões em que predomina o uso automatizador da IA mostram os piores resultados de emprego relativo para os trabalhadores iniciantes. Como colocam os investigadores, numa frase citada pela Ars Technica:
Os resultados são consistentes com a hipótese de que os usos da IA orientados para a automatização substituem mão de obra, enquanto os usos complementares estão associados a um emprego estável ou em alta.
A hipótese de trabalho dos investigadores é que os trabalhadores iniciantes são particularmente atingidos em profissões que dependem fortemente de conhecimento «codificado» — formal e padronizado, ensinável pela educação, manuais e procedimentos escritos —, ao contrário de profissões que dependem de conhecimento «tácito», adquirido pela prática, pela mentoria e pela experiência repetida.
Usando o nível de escolaridade exigido por uma profissão, retirado da base de dados O*NET, como indicador da sua dependência do conhecimento codificado, os investigadores constatam que as profissões muito codificadas mostram um crescimento mais lento do emprego inicial, enquanto as profissões baseadas em conhecimento tácito mostram um crescimento mais rápido do emprego para trabalhadores em meio e fim de carreira.
A educação superior parece atenuar o efeito. Em profissões com uma elevada proporção de licenciados, a diferença entre postos muito e pouco expostos à IA é mais atenuada. Em profissões com poucos licenciados, os postos menos expostos viram o emprego crescer, enquanto os mais expostos viram o emprego diminuir.
A TIME traz um dado adicional: entre trabalhadores com 30 ou mais anos em categorias de forte exposição à IA, o emprego cresceu entre 6% e 12% entre o final de 2022 e maio de 2025 — um possível sinal de que os trabalhadores mais velhos detêm um conhecimento tácito mais difícil de replicar pela IA, ou um poder organizacional que os protege mais. Profissões mais manuais — cuidadores ao domicílio, técnicos de manutenção, taxistas — mantiveram o emprego estável ou mesmo em crescimento, segundo a TIME.
As nossas conclusões são consistentes com a hipótese de que a IA está a produzir este efeito [no mercado de trabalho], especialmente para os trabalhadores iniciantes.
Erik Brynjolfsson, diretor do laboratório, descreveu o padrão como invulgarmente marcante à TIME:
Foi realmente impressionante ver um efeito tão marcante nalgumas categorias e não noutras. Penso que é justo dizer que a tecnologia sempre destruiu empregos e sempre criou empregos. Se quisermos gerar não só maior produtividade, mas prosperidade amplamente partilhada, usar a IA para aumentar o trabalho, e não apenas para o automatizar, é um bom caminho a seguir.
Os efeitos sobre o nível inicial que estamos a medir são reais, persistentes e estão a alargar-se, e estou mais preocupado do que antes com um mercado de trabalho que mantém o seu nível geral de emprego enquanto fecha discretamente a rampa de acesso para quem está a começar a carreira.
A ironia não escapa aos próprios investigadores: usaram IA para escrever o código que processa os dados da ADP, verificar referências, gerar e editar os gráficos do estudo, e ajudar na redação — um uso que eles próprios classificam, segundo a TIME, como «aumentativo».
O que isto muda para os jovens licenciados e as empresas em Portugal
Para um jovem licenciado em Portugal e para uma empresa que hesita entre automatizar uma função ou aumentá-la, os dados de Stanford trazem um alerta, não um veredito: o efeito passa sobretudo por menos contratações de iniciantes, não pela eliminação de postos já existentes. Os empregadores que usam a IA para tornar os seus novos colaboradores mais eficientes, em vez de dispensarem a sua necessidade, parecem, segundo esta evidência, ser os que continuam a contratar.
Fontes
- AI is hitting entry-level jobs hardest, Stanford study findsArs Technica · 24 de agosto de 2026
- Who's Losing Jobs to AI? New Stanford Analysis Breaks It DownTIME · 24 de agosto de 2026



