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Thomson Reuters cria seu próprio modelo de IA jurídica

Por cerca de US$ 40 milhões, a Thomson Reuters construiu o “Thomson”, seu primeiro grande modelo de linguagem próprio, baseado no modelo aberto Qwen da Alibaba e treinado com décadas de dados jurídicos da Westlaw.

A redação nullbotPublicado em 25 de agosto de 20265 min de leituraFontes (2)
A sede da Thomson Reuters, uma torre de escritórios no centro de Toronto
Can Pac Swire from Toronto, Canada · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons

A Thomson Reuters apresentou o “Thomson”, seu primeiro grande modelo de linguagem (LLM) proprietário. Ele é baseado no Qwen, o modelo aberto do grupo chinês Alibaba — a empresa afirma usar atualmente a versão Qwen3.5-397B. Segundo a Thomson Reuters, o projeto recebeu cerca de US$ 40 milhões em investimento ao longo de dois anos em equipe e poder de computação, de acordo com reportagem do The Decoder.

O único treinamento final (“training run”) da versão atual teria custado cerca de US$ 450 mil — um número mais citado, mas que representa apenas uma fração do custo real. Mesmo os US$ 40 milhões não incluem o verdadeiro valor subjacente: décadas de conteúdo da Westlaw, Practical Law, Checkpoint e Reuters, além do tempo de trabalho de centenas de especialistas jurídicos dedicados ao projeto ao longo de anos.

Como um modelo aberto virou um modelo jurídico

Em parceria com o Imperial College London, a Thomson Reuters primeiro realinhou o modelo chinês aberto em segurança, ética e neutralidade política. Essa etapa intermediária recebeu o codinome “Snowdon”, em referência a uma montanha do País de Gales. Em seguida vieram um pré-treinamento com conteúdos proprietários da empresa, um pós-treinamento com especialistas do domínio jurídico e aprendizado por reforço agêntico nos ambientes de ferramentas proprietárias da empresa, como a Westlaw. Segundo a empresa, menos de 10% dos conteúdos disponíveis foram usados no treinamento até agora.

O CTO Joel Hron contou ao The Decoder que o ponto de partida do projeto foi alterado “umas seis vezes, mais ou menos”. O chefe de pesquisa Jonathan Schwartz acrescenta que a verdadeira conquista não é um modelo isolado, mas uma “fábrica de modelos” reutilizável.

A Thomson precisa definir a fronteira da inteligência para o setor jurídico. Esse é um trabalho diferente do que, na minha opinião, muitos laboratórios de ponta estão fazendo.

Joel Hron, diretor de tecnologia da Thomson Reuters, citado pela SiliconANGLE

Se você simplesmente pegar o modelo open source sem todas essas etapas adicionais, ele não vai saber tanto. Você não estará necessariamente alinhado com os próprios valores, e ele não será tão bom quanto usar as ferramentas que você construiu depois.

Jonathan Schwartz, chefe de pesquisa da Thomson Reuters, citado pela SiliconANGLE

Benchmarks que exigem cautela

Em testes próprios, o Thomson obtém 0,823 no benchmark Stanford LegalBench, atrás do Gemini 3.1 Pro e do GPT-5.5. No Harvey Legal Agent Benchmark, fica logo atrás do Claude Opus 4.8. O Thomson lidera em seguir instruções e no exigente PrBench Legal, mas fica bem atrás em raciocínio e, principalmente, em programação. A comparação é considerada metodologicamente enviesada: o Thomson é testado com escalonamento em tempo de teste, enquanto o GPT-5.5 é testado sem seu modo de raciocínio.

No benchmark interno de pesquisa aprofundada, o Thomson obtém 0,53 de fidelidade factual com acesso somente à web, contra 0,65 do GPT-5.4. Mas com acesso aos conteúdos proprietários do grupo, sua pontuação sobe para 0,83, superando por pouco o 0,82 do GPT-5.4. Andrew Bean, responsável pela avaliação, reconhece que, com acesso somente à web, o modelo “certamente ainda não” está na liderança. Um dado notável: o GPT-5.4 também se beneficia bastante do acesso a conteúdos proprietários — o acesso aos dados conta quase tanto quanto o próprio treinamento especializado. A SiliconANGLE observa que esses resultados internos ainda não receberam validação independente extensa; um relatório técnico com mais resultados de benchmarks deve ser publicado depois. A Thomson Reuters começou a compartilhar o modelo com especialistas jurídicos e instituições acadêmicas para testes.

Por que construir em vez de ajustar um modelo de ponta

Por que um modelo próprio em vez de um fine-tuning de um modelo de ponta da OpenAI ou da Anthropic? A empresa aponta três razões:

  • Economia: o fine-tuning padrão costuma degradar as capacidades gerais do modelo e deixa a empresa dependente dos custos de inferência e do roteiro do fornecedor; um modelo próprio menor é rentável para tarefas de alto volume, como a revisão de documentos.
  • Dados: o treinamento em ambientes de ferramentas proprietárias como a Westlaw gera exatamente o salto de desempenho observado, um acesso que a empresa não quer conceder a nenhum terceiro.
  • Efeito cumulativo: cada avaliação de especialistas feita durante atualizações do produto vira dado de treinamento que se acumula como capital próprio com um modelo proprietário, em vez de beneficiar um fornecedor externo.

A empresa reconhece limites nessa abordagem: ela só se generaliza para empresas que reúnem três ingredientes raros — bases de dados exclusivas, centenas de especialistas do domínio empregados internamente e fluxos de trabalho em que a qualidade pode ser medida objetivamente. Para uma empresa com esse perfil, a comunidade open source atrasa em apenas alguns meses o alcance dos laboratórios de ponta, e US$ 40 milhões podem bastar para um modelo especializado competitivo. Para uma empresa sem dados próprios nem infraestrutura de avaliação, um modelo proprietário custaria principalmente em manutenção contínua.

Primeiro uso: dentro do CoCounsel

O Thomson é integrado primeiro à função “Tabular Analysis” do CoCounsel Legal, o assistente de IA jurídica da Thomson Reuters, para revisão de documentos em alto volume — um caso de uso em que um modelo menor e mais barato faz sentido econômico. O CoCounsel continua multimodelo: os administradores ainda podem escolher outros modelos. O Thomson não foi feito para orquestrar todo o sistema, mas para cuidar de subtarefas como a verificação de citações. Segundo a empresa, os dados dos clientes não são usados no treinamento.

Uma versão menor do modelo será lançada com pesos abertos no Hugging Face sob licença não comercial, acompanhada de um relatório técnico e um portal para desenvolvedores. Também há conversas preliminares e não vinculantes com escritórios de advocacia sobre licenciamento direto.

A Thomson Reuters lembra o contexto: sua plataforma principal, a Westlaw, reúne mais de 40 mil bases de dados individuais e mais de 150 anos de publicação e curadoria editorial jurídica. Segundo a empresa, controlar o próprio modelo lhe dá mais autoridade sobre implantação, governança e desenvolvimento futuro — um argumento de “soberania de IA”. Já há conversas em andamento com grandes escritórios de advocacia e empresas sobre acesso direto ao modelo, incluindo a possibilidade de clientes adaptarem o Thomson ao próprio conhecimento e fluxos de trabalho.

Para escritórios de advocacia e departamentos jurídicos brasileiros, o caso mostra em que condições um modelo de linguagem próprio se torna realmente vantajoso: só uma organização com bases de dados exclusivas construídas ao longo de décadas, especialistas internos do domínio e critérios de qualidade mensuráveis objetivamente consegue construir, com um orçamento relativamente modesto, um modelo especializado capaz de competir com os laboratórios de ponta. Para a maioria das empresas brasileiras, integrar modelos já existentes por meio de um sistema agêntico deve continuar sendo o caminho mais pragmático, especialmente para automatizar tarefas jurídicas e administrativas recorrentes.

Fontes

  1. Warum Thomson Reuters 40 Millionen Dollar in ein eigenes Sprachmodell investiertThe Decoder · 24 de agosto de 2026
  2. Thomson Reuters launches proprietary AI model for legal workSiliconANGLE · 24 de agosto de 2026

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